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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

ELE ESTÁ DE VOLTA

ELE ESTÁ DE VOLTA

Jefferson José da Conceição (jeffdacsenior@gmail.com)

Em 2015, estive em Berlim e fiquei impressionado com a capacidade dos alemães em terem reconstruído, de modo tão sutil e futurista, uma cidade literalmente arrasada pelos bombardeios na Segunda Guerra. Pude também visitar o campo de concentração de Sachsenhausen, bem próximo de Berlim (45 minutos de trem). Uma das visitas emocionalmente mais fortes que pude viver.

Hoje, acabo de ler o livro “Ele está de volta” de Timur Vermes (Editora Intrinseca, 2014, 304 p.). Recomendo a leitura. O livro foi a base do filme homônimo, de David Wnendt.

A obra é uma sátira inteligente do mundo em que vivemos nesta segunda década do século XXI, a partir de um acontecimento naturalmente absurdo, que é a presença, neste novo século, em pleno exercício de suas funções físicas e mentais, de um dos personagens mais fortes, fatídicos e monstruosos da história mundial, que viveu na primeira metade do século XX: Adolf Hitler.

Pense que, por algum motivo, Hitler, o “Führer”, acorda, no ano de 2011, em um terreno baldio no centro de Berlim, sem qualquer tipo de abrigo ou estafe para ajudá-lo. Assim começa o livro, o que gera no leitor uma série de curiosidades e interrogações naturais.

Inicialmente atordoado, sem entender o que aconteceu e com muito estranhamento sobre tudo a sua volta, Hitler vai, pouco a pouco, tomando noção das mudanças que ocorreram na sociedade desde os tempos da Segunda Guerra Mundial.

Ajudado por pessoas que, claro, consideram que estão diante não do verdadeiro Hitler, mas sim de um ator convincente e apaixonado pelo seu papel, a tal ponto de parecer bastante com o personagem histórico, Hitler se depara com as cores da nova Cidade de Berlim, os novos prédios, hábitos de moradores e transeuntes, novos automóveis. Conhece a TV, o computador, a internet, o email, o youTube, as redes sociais.

Durante todo o livro, Hitler faz a análise das mudanças ocorridas nos últimos setenta anos a partir dos valores que tinha no período de ascensão do nazismo. Assim é o caso, por exemplo, a expansão dos imigrantes na Europa atual. Hitler a analisa a partir da perspectiva da supremacia da raça alemã e do seu desprezo pela democracia.

Ainda que visto de uma maneira cômica, seu poder de persuasão é tão grande que Hitler acaba ganhando um programa de TV, atingindo altos índices de audiência.

O discurso ditatorial e sua propagação em um ambiente econômico e social propício

Sim, o mundo mudou muito nos últimos setenta anos. Mas há fatores econômicos e sociais que se recolocam a olhos vistos. Se extrairmos os detalhes factuais de cada momento, observaremos que a essência dos acontecimentos se reconstituem na história.

Façamos uma breve recuperação dos fatores que levaram à propagação do discurso ditatorial do Führer. Em grande medida, a difusão do discurso se deve a forte crise econômica, desemprego, inflação, falta de expectativas quanto ao futuro e fragilidade das instituições naquele momento. No caso mais específico, uma Alemanha arrasada pelos efeitos da derrota na Primeira Guerra Mundial e com uma profunda crise durante a década de 1920.

É no contexto de crise econômica que se dá a expansão das ideias nazistas. Assim, após ter participado da Primeira Guerra como um simples soldado (tendo sido inclusive ferido em combate), Hitler, em 1919, entra para o pequeno Partido Trabalhista Alemão. Um ano depois, este partido passa a denominar-se de “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, o Partido Nazista. Em 1921, Hitler assume o comando do Partido. Em 1923, tenta ganhar o governo da Baviera por meio de um golpe malsucedido. É preso por nove meses, quando escreve o livro “Minha luta”, publicado em 1925.

Entre as principais bandeiras do Partido está a forte crítica ao Tratado de Versalhes, que decretou condições bastante duras para a Alemanha derrotada na guerra, e, por consequência, uma dívida pesada a ser paga por todo o povo alemão.

Ao longo de toda a década de 1920, as condições favoreceram o discurso de Hitler: agravou-se a recessão econômica na Alemanha; a inflação tornou-se incontrolável, alcançando uma hiperinflação; instalou-se um ambiente de caos social, especialmente após a crise internacional de 1929 com o crash da Bolsa de Nova York. Os culpados pela crise do País, segundo os nazistas, eram os judeus, o comunismo e as nações vencedoras da Primeira Guerra. Hitler pregava a autoestima e a superioridade do povo alemão, bem como a recuperação da economia. 

Neste contexto, e com esse discurso, o partido de Hitler conquista cerca de 1/3 dos votos nas eleições presidenciais de 1932. Perde para Hindenburg, mas mostra força. Em 1933, Hitler é nomeado Chanceler da Alemanha.

A geração de empregos (pela política armamentista), que os nazistas souberam capitalizar, associado ao acirramento das tensões, que atingiu seu ápice com o incêndio do Palácio de Reichstag, atribuído a um ato dos comunistas, fortalece o apoio ao Führer. Dias depois do incêndio, o partido nazista ganha as eleições. Esta sequência de fatos dá à Hitler plenos poderes ditatoriais.

A ditadura e o terror aumentam. Em 1935, são decretadas as Leis Raciais de Nuremberg, que aumentam a perseguição e segregação dos judeus. Ao final da guerra, seis milhões de judeus foram vítimas do holocausto.

Tendo o controle da nação, Hitler inicia sua política de expansão externa pela via militar. Em 1936, ocorre a formação do eixo Alemanha, Itália e Japão. Em 1938, a ocupação da Tchecoslováquia; em 1939, a invasão da Polônia, estopim para a Segunda Guerra. Em 1940, Hitler ocupa a França, Belgica, Países Baixos.

Após as conquistas iniciais, e com a entrada dos EUA na guerra (1941), que se unem à Inglaterra e à União Soviética, contra os países do Eixo, Hitler começa a perder a guerra. Em 1944, já derrotado, suicida-se em um bunker a cerca de dez metros abaixo da terra (vale a pena ver também “O Bunker”, filme de George Schaefer, com Anhony Hopkins).

Por que não de novo? Pergunta Hitler a si mesmo

A meu ver, um dos pontos fortes do livro e que nos remete a refletir sobre os riscos que corre a sociedade contemporânea é quando Hitler, já menos atordoado pelos fatos, passa a refletir sobre como poderia voltar a ter o domínio da sociedade e conduzir o seu povo à vitória.

Reproduzo a seguir este trecho do livro no qual Hitler se dá conta de que, mesmo neste novo mundo, é possível fazer tudo de novo, uma segunda vez:

“Em uma das primeiras noites, rolei inquieto na minha poltrona, insone após leituras exaustivas, resmungando do meu destino difícil, até que de repente tive um estalo. Imediatamente me levantei, os olhos abertos pela inspiração. Eles espreitaram os grandes vidros com confeitos coloridos e tudo o mais. Foi o próprio destino, como metal incandescente derramado diante dos meus olhos interiores, que interferiu com sua mão invisível no curso dos acontecimentos. Bati com a mão espalmada na testa; era tão óbvio que eu mesmo me xinguei por não ter pensado naquilo antes. E também porque o destino, pela primeira vez, não tomou as rédeas da situação para mudar os acontecimentos a seu favor. Não fora exatamente em 1919, na pior época de miséria alemã? Não foi nesse período que um cabo do exército desconhecido levantou a trincheira? Apesar da opressão das circunstancias pequenas, mínimas, na verdade, ele não acabou se revelando um orador de talento entre muitos, entre os desesperançados, logo ali, onde menos eu esperaria? Esse talento também não se revelou um tesouro surpreendente de conhecimento e experiência, reunido nos dias mais amargos de Viena, uma curiosidade insaciável que fazia o adolescente com mente aguda absorver, desde a mais tenra juventude, tudo o que tinha relação com a história e a política? Conhecimentos dos mais valiosos, aparentemente armazenados ao acaso, mas, na verdade, acumulados com cuidado, ponto a ponto, pela providência, em um único homem? E ele, esse cabo invisível do exército, em cujos ombros milhões depositaram suas esperanças, não arrancou as amarras de Versalhes e da Liga das Nações, e, com a facilidade emprestada pelos deuses, não resistiu às batalhas forçadas com os exércitos da Europa, contra a França, a Inglaterra, a Rússia? Este homem, apenas com a formação supostamente mediana, não levou a pátria ao píncaro mais alto da glória, enfrentando o julgamento unânime de todos os chamados especialistas?

Ou seja, este homem sou eu.(...)

No entanto, ainda havia uma pergunta a ser respondida: por que eu, se tantos grandes nomes da história alemã esperavam por uma segunda chance de conduzir seu povo a uma nova glória?  Por que não Bismarck, um Frederico II?  Um Carlos Magno? (...)

A resposta para essas perguntas chegou após as reflexões iniciais de forma tão tranquila que eu quase sorri de tão lisonjeado que estava. Pois a tarefa hercúlea que esperava ser cumprida de fato parecia adequada para colocar mesmo os homens mais corajosos, os grande e maiores alemães, no devido lugar. Sozinho, por conta própria, sem o aparato do partido, sem a força governamental, valia confiar àquele que já havia mostrado que estava em condições de limpar o estábulo de Augias democrático. A pergunta que deveria ser respondida neste momento era: eu queria assumir todo aquele sacrifício doloroso novamente, uma segunda vez? Engolir todas as privações, engolir em seco até mesmo todo o desprezo? Pernoitar em uma poltrona bem perto de uma chaleira, na qual durante o dia salsichas simples de carne bovina eram preparadas para serem consumidas? E tudo isso por um povo que já deixou seu Fuhrer ao léu na luta pelo seu destino? O que aconteceu mesmo com a intervenção do grupo de Steiner? Ou com o de Paulus, aquele patife desonrado?

Mas aqui o caso era refrear o ressentimento e separar estritamente a ira justificada da raiva cega. Assim como o povo precisa defender seu Führer, o Führer também deve defender seu povo. O soldado raso, sob a liderança correta, sempre deu o seu melhor. Não há acusação a se fazer contra ele se não marchar confiante até o fogo inimigo, pois essa ralé de generais medrosos, que se esquece de suas obrigações, pisoteia com as botas a honrada morte soldadesca.

- Sim! - gritei para a escuridão da banca. - Sim! Eu quero! E vou! Sim, sim e sim, mais uma vez!

Ao modo de conclusão

Este meu artigo resenha sobre o livro “Ele está de volta” me leva a manifestar a mesma preocupação por mim já expressa no artigo “A Direita ‘saiu do armário’”, publicado em 23 de maior de 2016.

Em uma democracia, é normal que ora a esquerda, ora a direita, ora o centro assuma o poder pela via das urnas. Isto faz parte das regras do jogo.

Nos últimos anos, há um processo de “endireitização” no Brasil e no mundo atualmente. Isto significa a defesa do capitalismo, do livre mercado, das privatizações, da desregulamentação da economia e do Estado Mínimo (verdade que grupos mais radicais da Direita são defensores do "Estado Máximo", na linha das ideias nazifascistas: 'tudo pelo Estado, tudo para o Estado, tudo do Estado'). A redução das políticas de welfare state. A aceitação da desigualdade social como algo natural. A valorização do individualismo e do empreendedorismo. A defesa das tradições e da família patriarcal. O combate ao aborto, eutanásia e homossexualidade. Muitas vezes, são exaltados também a “limpeza” ética e o suposto combate ferrenho à corrupção.

Minha preocupação, no entanto, é que, em um ambiente de crise econômica, social e política, a defesa destes valores, por parte de grupos radicais, pode recolocar novamente a busca de culpados (esquerdistas, imigrantes, outras religiões) e de novos ´”heróis”.

No princípio, a sociedade tende a considerar estes “heróis” - como foi o caso de Hitler - como excêntricos e até cômicos. Há uma certa tolerância com eles. Aceita-se inclusive em “testar” a eficácia das suas propostas. Tudo como se, caso necessário, pudesse a sociedade freá-los quando bem quisesse.

Entretanto, sabemos que a sociedade pode perder controle dos processos e que, neste caso, os resultados são muito tristes e duros de serem esquecidos. 

Jefferson José da Conceição é Prof. Dr. da USCS. Foi Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo entre jan 2009 e julho 2015; Superintendente do SBCPrev entre agosto 2015 e fevereiro 2016. Foi Diretor Técnico da Agência São Paulo de Desenvolvimento entre 5 de fevereiro de 2016 e 6 de janeiro de 2017

Artigo publicado em 9 de janeiro de 2017 no site do ABCDMaior, coluna blogs (Ponto de (des)equilíbrio)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A DIREITA “SAIU DO ARMÁRIO”

Jefferson José da Conceição

Até alguns anos atrás, ninguém no Brasil ousaria se dizer de direita. Os defensores dos argumentos e das propostas desta linha de pensamento e ação política tinham certa timidez em defendê-las. Em parte, isto se devia ao fato de o Brasil ter vivido um quarto de século sob uma ditadura militar que contou com amplo apoio e mobilização da direita no período. De outra parte, porque é muito difícil ser assumidamente conservador em um país que se encontra no grupo dos países que apresentam pior distribuição de renda no mundo.

Como reflexo, praticamente nenhum partido se assume de direita no Brasil. Somente alguns partidos nanicos, como PRTB e PSC, assumem esta ideologia. Dos partidos maiores, poder-se-ia dizer que o DEM seria o mais próximo do que se classifica de direita. As ações e propostas do PSDB também aproximam o partido do campo da direita, apesar da expressão “Social Democracia” constar no nome do partido. Contudo, nenhum deles, nem DEM nem PSDB, se assumem publicamente como de direita.

Este quadro vem mudando rapidamente no Brasil. No último período, é crescente o número de pessoas que defendem abertamente teses clássicas da direita e que se autodeclaram de direita. Os atos de panelaço e as mobilizações verde-amarelas pelo impeachment da Presidente Dilma tiveram verniz predominantemente de direita, não obstante a existência de vários perfis e de discursos entre os manifestantes.

1. O que é ser de direita?

Façamos um rápido desvio para, de modo geral, entender melhor o que é ser de “direita”. Em seguida, voltaremos ao caso brasileiro recente.

Diversos autores relatam que, historicamente, os termos “direita” e “esquerda” originaram-se no processo da Revolução Francesa (1789-1799). Os termos guardam relação com a posição em que se sentavam, na assembleia francesa, aqueles mais simpáticos ao Antigo Regime (Monarquia) em comparação com o lugar em ficavam os defensores da Revolução. Em geral, os membros pró Antigo Regime sentavam-se à direita da cadeira do Presidente do Parlamento; os favoráveis à Revolução, à esquerda. Note-se ainda que os defensores do Antigo Regime buscavam preservar os direitos hereditários da nobreza e as instituições estabelecidas. Eles também se opunham às mudanças velozes trazidas pelo iluminismo e pela nova era industrial.

Evidentemente, não é o caso aqui, no espaço breve deste artigo, de dissertar sobre a evolução e as nuanças da Direita no Brasil e no mundo desde a Revolução Francesa.  Cabe dizer apenas que, assim como acontece com a esquerda, há hoje um amplo gradiente de visões e posicionamentos políticos da chamada direita no Brasil e no mundo. A Direita, por exemplo, vai da direita democrática até a ultradireita fascista; da defensora do Estado Mínimo até aquela que defende um Estado forte e autoritário.

Entretanto, para fins didáticos, e correndo o risco da superficialidade, destacaremos os principais elementos que caracterizam o pensamento e o posicionamento da Direita. De modo geral, os membros da Direita:

a)      aceitam a hierarquia e ordem social (o “status quo”). Portanto, em geral as revoluções populares não fazem parte da linha de pensamento da Direita;


b)      defendem as tradições e as instituições como a família patriarcal e a igreja;


c)       muitos têm posição contrária a temas que possam afetar as instituições família e igreja, como são os casos do aborto, eutanásia e homossexualidade;


d)      tratam a questão da desigualdade social como natural e até desejável;


e)      valorizam o mérito individual, a iniciativa e o empreendedorismo;


f)       consideram que as mudanças devem, em geral, ocorrer lentamente, gradualmente, sem rupturas com a ordem social – salvo quando a mudança for para “restabelecer a ordem”;


g)      defendem o “Estado Mínimo”, isto é, o Estado deve buscar intervir o mínimo possível na economia e na sociedade. O Estado deve restringir ao máximo seu desejo de produzir, regulamentar, induzir e fomentar a economia. Não cabe ao Estado produzir bens e serviços, à exceção de algumas áreas da educação e da saúde, e mesmo assim de modo restrito;


h)      como defensores do Estado Mínimo, argumentam também que a carga de impostos sobre a iniciativa privada deve ser mínima;


i)        economicamente, defendem a propriedade privada, o livre mercado, a privatização e a desregulamentação. Apoiam o capitalismo;


j)        são contrários às políticas de welfare state, que representam intervenções do Estado na economia, como fixação de salário mínimo, políticas sociais, etc;


k)      opõem-se à social-democracia, ao anarquismo, ao socialismo e ao comunismo;


l)        em sua fração mais radical (ultradireita), são contrários à democracia e favoráveis a um Estado forte; possuem discurso racistas, nacionalistas e contrários à imigração. Partem da filosofia de que devem prevalecer (sobreviver) os mais fortes (nações, raças). O fascismo e o nazismo enquadram-se neste campo.

Na segunda metade do Século XX, entre os políticos de Direita que influenciaram o rumo dos seus países estiveram Francisco Franco (Espanha), Augusto Pinochet (Chile), Margaret Thatcher (Reino Unido), Ronald Reagan e George Bush (EUA).

Para a Direita, um momento particularmente simbólico, de vitória sobre a Esquerda, ocorreu em 1989, com a simbólica queda do muro de Berlim, o fim do chamado socialismo real no bloco soviético e a suposta vitória do capitalismo. Com o fim da Guerra Fria, chegou-se mesmo a falar em “fim da história”. Nos anos de 1980 e 1990, as políticas neoliberais foram implantadas em várias partes do mundo, comandadas na maioria das vezes por Partidos ligados à Direita. A partir daí a Esquerda entra em crise em todo o mundo e, de certa forma, ela ainda discute as bases de sua reconstrução.

No entanto, como sabemos, a crise da economia capitalista em 2008/2009 mostrou com clareza que a história não havia acabado. As políticas neoliberais, uma vez mais, foram postas em xeque. Os processos históricos são dinâmicos, dialéticos, e não permitem o uso da palavra “fim” como se fosse um filme de cinema.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

2. A “endireitização” recente no Brasil

Ainda são poucas as pesquisas que buscam identificar o perfil ideológico dos brasileiros e brasileiras. Uma delas é a que vem realizando o Datafolha, instituto de pesquisa pertencente ao Grupo Folha.

Em 8 de setembro de 2014, o Datafolha divulgou pesquisa na qual buscou identificar o perfil dos eleitores brasileiros em face de diferentes temas relacionados a comportamento, valores e economia. Foram entrevistados 10.054 eleitores em 361 cidades em todas as regiões do Brasil. A margem de erro foi de 2 %, para mais ou para menos. O mesmo instituto havia realizado pesquisa semelhante em novembro de 2013.

Os resultados mostraram “uma mudança na opinião dos brasileiros”. O percentual de brasileiros afinados com os temas defendidos pela Direita era de 45%, contra uma parcela de 35%, que se alinhava com o temário da Esquerda. Em pesquisa anterior (novembro de 2013), a Esquerda tinha percentual superior à Direita (41% contra 39%). Nas duas pesquisas, cerca de 20% se situa ao centro do espectro ideológico.

Pesquisa de Opinião dos Brasileiros frente a temas diversos

Nov. 2013
Set. 2014
Possuir arma legalizada deve ser um direito de todo cidadão para se defender
30%
35%
Posse de arma deve ser proibida
68%
62%
Pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não trabalham
32%
37%
Pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida
65%
58%
Governo deve atuar com força na economia para evitar os abusos de empresas
58%
51%
Quanto menos o Governo atrapalhar a competição entre as empresas, melhor para todos
31%
35%
Sindicatos são importantes para defender os trabalhadores
49%
42%
Sindicatos servem mais para fazer política do que para defender os trabalhadores
45%
50%
Adolescentes que cometem crimes devem ser reeducados
26%
22%
Adolescentes que cometam crimes devem ser punidos como adultos
72%
76%
Homossexualidade deveria ser aceita por toda a sociedade
67%
64%
Homossexualidade deveria ser desencorajada por toda a sociedade
25%
27%
Pessoas pobres de outros países e Estados que vão para as cidades do entrevistado contribuem para o desenvolvimento e cultura desses locais
67%
63%
Pessoas pobres de outros países e Estados que vão para as cidades do entrevistado criam problemas para a cultura e desenvolvimento das cidades
25%
26%
Pena de morte como melhor forma de punição para indivíduos que cometem crimes graves
47%
43%
Não cabe à Justiça matar uma pessoa, mesmo que ela tenha cometido um crime grave.
49%
52%
Crença em Deus torna as pessoas melhores
86%
86%
Acreditar em Deus não necessariamente torna uma pessoa melhor
13%
13%
Drogas devem ser proibidas porque toda a sociedade sofre com as consequências
-
82%
Drogas deveriam ser legalizadas porque é o usuário quem sofre com as consequências do uso de drogas
-
15%
Maior causa da criminalidade é a falta de oportunidades iguais para todos
34%
36%
Maior causa da criminalidade é a maldade das pessoas
63%
60%
É preferível pagar menos impostos ao governo e contratar serviços particulares de educação e saúde
49%
49%
É preferível pagar mais impostos ao governo e receber serviços gratuitos de educação e saúde
43%
40%

Elaboração de Jefferson José da Conceição a partir de matéria e dos dados do Instituto DataFolha. A referida matéria foi divulgada em 8/9/2014 e está disponível em: http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2014/09/1512693-direita-supera-esquerda-no-brasil.shtml

Pode-se verificar pela Pesquisa que ocorre, no período recente, o fenômeno da “endireitização” de parcela da sociedade brasileira.

Este fenômeno se revela também no discurso conservador que tem sido veiculado não apenas por lideranças políticas das mais variadas áreas (empresariado, sindicatos, religiosos, acadêmicos, artistas etc), mas também por pessoas comuns que se expressam nas redes sociais, nos locais de trabalho e nas ruas.

A nosso ver, este fenômeno ocorre especialmente após as manifestações de junho de 2013, apropriadas pela Direita, e se intensifica após a forte crise econômica de 2015/2016. Como se sabe, a crise impactou fortemente as ações do Governo Dilma.

3. Por que o fenômeno da recente “endireitização” é preocupante?

A rigor, em uma democracia, ser de direita, esquerda, centro ou qualquer outro posicionamento, faz parte da regra do jogo. Somente não faz parte da regra do jogo quando as posições extremas (radicais) passam a questionar a própria democracia.

Portanto, a “endireitização” recente no Brasil é algo que deveríamos conviver com certa naturalidade. Especialmente porque a democracia funciona à base de um sistema de pêndulos (ora a Esquerda está à frente do poder, ora a Direita, ora o Centro).

No entanto, é preocupante que ocorra a “endireitização” em um país como o Brasil, por vários motivos. Aqui destacamos dois:

1)      Primeiro, o Brasil ainda não consolidou plenamente a democracia como sistema político após o longo período de Ditadura no País (1964-1985).


2)      Segundo, o Brasil carece de transformações aceleradas no seu processo de desenvolvimento – transformações estas que passam necessariamente pela redução da desigualdade e incorporação de parcelas da sociedade que ainda não foram plenamente integradas à vida política nacional e ao mercado de consumo.


Dificilmente, no Brasil, os programas e ações da Direita nos conduzirão ao desenvolvimento com o alcance simultâneo destas condições mencionadas.


Em atos recentes, já pudemos verificar esta impossibilidade da Direita atender a estes requisitos.


O primeiro desses atos foi o impeachment da presidente eleita, Dilma Rousseff, sem a devida comprovação de crime de responsabilidade. Portanto, o Brasil acaba de viver um golpe de Estado com verniz de legalidade. A meu ver, o fato de o processo ter passado pelo Judiciário e pelo Parlamento Brasileiro não garantem que não tenha havido golpe. Registre-se que processo semelhante já havia ocorrido no Paraguai, com a destituição do Presidente Fernando Lugo, em 2012. O impeachment da Presidente no Brasil estimulará ações semelhantes em outros países da América Latina.


Outra prova de que não seguiremos rumo ao desenvolvimento é a imediata eliminação de uma série de programas sociais pelo novo governo interino de Michel Temer. Programas como a Política de Valorização do Salário Mínimo, o Bolsa Família, o Minha Casa, minha vida, o Prouni, entre tantos outros carecem de continuidade e ampliação. Sua interrupção certamente terá resultados bastante nefastos nos indicadores de desigualdade do país.


Ao final, quero registrar que extraí o título deste artigo da “orelha” do livro “Direita, volver!”, cujos organizadores são Sebastião Velasco e Cruz, André Kaysel e Gustavo Codas, lançado em 2015 pela Editora da Fundação Perseu Abramo. A leitura deste livro é bastante oportuna e possibilita um melhor entendimento dos duros tempos pelos quais passamos hoje em nosso país.

Jefferson José da Conceição é Prof.Dr. da USCS. Foi Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo, de 2009 a julho 2015. Foi Superintendente do SBCPrev  de 2016 a fevereiro 2016. Foi Diretor Técnico da Agência São Paulo de Desenvolvimento- Adesampa, de março 2016 a janeiro 2017. Atualmente é o Coordenador (Gestor) da Escola de Negócios da USCS, que reúne os cursos de Graduação em Administração, Economia Ciências Contábeis e Comércio Exterior..
Artigo publicado no site do ABCDMaior (www.abcdmaior.com.br), em 23/5/2016, na coluna blogs.