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sábado, 13 de julho de 2019

AFROEMPREENDEDORISMO, POLÍTICAS PÚBLICAS E INICIATIVAS DA SOCIEDADE CIVIL: BRASIL, ESTADO DE SÃO PAULO E GRANDE ABC

A nota técnica a seguir foi extraída da 8ª Carta de Conjuntura da USCS, de julho de 2019, publicada pelo Observatório de Políticas Públicas Empreendedorismo e Conjuntura – CONJUSCS. Para ter acesso à carta completa acesse: www.uscs.edu.br/sites/conjuscs.

AFROEMPREENDEDORISMO, POLÍTICAS PÚBLICAS E INICIATIVAS DA SOCIEDADE CIVIL: BRASIL, ESTADO DE SÃO PAULO E GRANDE ABC

Alessandra Santos Rosa Jefferson José da Conceição
Vânia Viana

Resumo Executivo

A exclusão dos negros em várias áreas da sociedade brasileira possui raízes históricas e estruturais, fruto do longo processo de escravidão no país, que alcançou quase quatro séculos. Em função disso, no Brasil, quando se discute o empreendedorismo negro - ou afroeempreendedorismo - mesclam-se no debate tanto os aspectos relacionados ao fenômeno do empreendedorismo em geral (tais como os riscos de cada negócio; a necessidade de capacitação na gestão do empreendimento; as exigências de acesso a mercados e crédito; empreendedorismo de necessidade versus empreendedorismo de inovação e fronteira tecnológica, entre outros), quanto às questões associadas às políticas públicas e as iniciativas da sociedade civil de apoio ao empreendedorismo de negros, criadas para ajudar na superação das dificuldades geradas pelo longo legado de exclusão e segregação. Isto com vistas a tornar o empreendedorismo um caminho efetivo de geração de oportunidades, trabalho e renda de qualidade para este segmento populacional hoje majoritário no país. Esta nota técnica aponta para a ainda tímida geração e execução de políticas públicas nesta área; levanta algumas importantes iniciativas da sociedade civil em relação ao tema; e, por fim, procura medir quantitativamente, no caso específico do Grande ABC, o tamanho do segmento de empreendedores negros na região e as leis aprovadas sobre o assunto. Na Região do Grande ABC, os negros representam 28,2% da população empreendedora. Apesar do número significativo de empreendedores negros na Região do Grande ABC, especialmente os que trabalham por conta própria, não há registro, conforme levantamento que fizemos da elaboração, aprovação de leis específicas voltadas a apoiar o afroempreendedorismo - assim como também acontece na grande maioria dos municípios e Estados do País. Com exceção do município de Diadema, que aprovou a Lei N° 3596/ 2016 de apoio ao Programa, nenhum outro município tem Lei de apoio ao afroempreendedorismo. Por conseguinte, é necessária uma mudança de postura e atitude por parte do executivo, das Câmaras de Vereadores, Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, entre outros órgãos regionais. Além disso, é fundamental a intensificação do envolvimento e das contribuições das empresas, sindicatos e universidades na construção e execução das políticas e iniciativas em prol do afroempreendedorismo.

1.   O afroempreendedorismo em breve perspectiva histórica no Brasil

Passados apenas 131 anos da libertação dos escravos no Brasil (contra quase 400 anos de escravidão), a inserção dos negros na sociedade brasileira, nas mais diferentes áreas –  educação, mercado de trabalho, vida social, empreendedorismo entre outras – continua a ser um grande desafio do País. Em parte, isto se deve ao fato de que, ao fim da escravidão, o país não enfrentou verdadeiramente a questão de como, de maneira transparente e efetiva, compensar e reduzir as enormes desigualdades impostas pela escravidão.

Ao contrário, em 1850, antes até do fim da escravidão, o governo imperial estabeleceu a Lei sobre a titulação das terras ocupadas. Esta lei reconheceu a concentração de terras em mãos privadas imposta no período colonial por meio do regime sesmarias. Ou seja, ao fim da escravidão, não houve distribuição de terras, nem equipamentos, nem recursos financeiros, a ponto de viabilizar condições mínimas de participação do negro na sociedade em igualdade de oportunidades com os não negros. Premido pela concorrência da mão-de-obra imigrante, naturalmente mais produtiva e adaptada ao sistema de assalariamento implantado nas lavouras e manufaturas, o destino de muitos negros, já ao final do século XIX e início do século XX, foi a sobrevivência em atividades laborais de segunda ou terceira classe e a ocupação de morros e encostas nas que seriam as primeiras favelas do país.

Passada a “hecatombe social” – valendo-nos aqui da expressão usada por Celso Furtado, em sua famosa obra ‘Formação Econômica do Brasil’ -, que foi a libertação dos escravos para a elite brasileira da época, pode-se dizer que, de 1888 até hoje (2019), houve, é claro, avanços importantes nas conquistas, nos direitos e nas condições de vida das pessoas negras. Entretanto, também é verdade que os indicadores de desigualdade continuam a não deixar dúvidas de que o desafio da inserção e da geração de igualdade de oportunidades ainda persiste.

No campo do empreendedorismo, o peso de nossa formação histórica também é grande, para negros e não negros. Para os negros, durante o período colonial, não houve qualquer possibilidade de, como escravos, almejar estruturar um negócio próprio; inovar em produtos, serviços e processos; buscar expandir sua empresa e acumular capital. A escravidão impedia qualquer surgimento de uma mentalidade empreendedora por parte da comunidade negra. Era tido e aceito como “natural” a exclusão social dos negros.

Entretanto, também para os não negros o incentivo à inovação e constituição de pequenos negócios se deu apenas marginalmente, na medida em que o grande negócio do açúcar, da mineração e do café, e posteriormente da grande empresa industrial no século XX, não favoreceu este tipo de atividade.

Por conseguinte, nos tempos atuais de valorização, em todo o mundo, da cultura empreendedora e da inovação na busca de resolução, por meio do empreendedorismo, de problemas concretos do mundo contemporâneo, o Brasil tem pela frente a necessidade de estruturar massivas e eficazes políticas de formação de uma mentalidade empreendedora e de apoio aos empreendedores, negros e não negros. Esta é uma necessidade que vale para toda a população, especialmente o segmento mais jovem, que abrange os negros e os não negros. Esta mentalidade empreendedora deve ser estimulada desde o ensino fundamental até a universidade e nas diferentes áreas e atividades econômicas e sociais.

Mas    o    afroempreendedorismo    encontra    barreiras    adicionais    para    avançar    em    seus empreendimentos: formação educacional; domínio das técnicas de gestão; acesso a crédito; relação com o mercado e investidores. Dificuldades que derivam em parte das próprias desigualdades entre negros e não negros, mas também do racismo que muitas vezes se verifica1. Por isto, é fundamental a elaboração e execução de políticas públicas e de iniciativas da sociedade civil que apoiem o afroempreendedorismo em suas várias fases: geração de ideias inovadoras, plano de negócios, incubação, aceleração, integração com o mercado e investidores, desenvolvimento tecnológico, parcerias locais, nacionais e internacionais.

Por fim, é importante também que os empreendedores negros sejam apoiados a participar do ecossistema de inovação, em igualdade de condições, na estruturação de produtos e serviços inovadores, de base tecnológica e de maior valor agregado, como são os casos dos empreendimentos em forma de startups. Hoje, ainda são poucas as startups formadas por empreendedores negros. Isto faz com que no presente e no futuro, agora sob nova roupagem, continuem as desigualdades que marcaram a trajetória da presença negra no Brasil.

Cabe dizer que os desafios da inserção dos negros no mercado de trabalho também acontecem em vários outros países2.


2.   Políticas públicas de fomento ao afroempreendedorismo

Em que pese o exposto anteriormente, ainda são ínfimas as legislações e as experiências de políticas públicas federais, estaduais e municipais de apoio ao afroempreendedorismo. E, ainda assim, há que se considerar que as mudanças de governo, naturais e desejadas em regimes democráticos, podem resultar em descontinuidade de ações embrionárias na área.

Os cases que costumam ser referência são da Bahia, Goiás e São Paulo (cujas leis são expostas no quadro mais adiante).

De qualquer modo, cumpre registrar que, em que pese a escassez de legislações e políticas mais especificas relacionadas ao afroempreendedorismo, houve avanços expressivos nas políticas direcionadas ao fomento do empreendedorismo no Brasil.

Assim, uma iniciativa das mais importantes foi a aprovação da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa (123/2006) e da Lei Complementar 128/2008, que dispôs sobre o MEI (Micro Empreendedor Individual).

Após 10 anos de vigência da Lei, o número de MEI já atingiu 8,1 milhão, segundo dados do SEBRAE, 2019. Este número é expressivo, sendo que parte significativa dele é constituído por pessoas negras. Em que pese não haver um recorte racial específico para os MEI, os dados da Global Entrepreneurship Monitor de 2017 indica que 38,8% dos pequenos e micro negócios têm representantes da população negra à frente.

     Programa Municipal São Paulo Afroempreendedor

Em função de ser a maior cidade da América do Sul, e, por esta razão, constituir-se sempre em um modelo de referência para as ações de outras cidades, cabe reproduzir sinteticamente a experiência da Prefeitura de São Paulo de apoio ao afroempreendedorismo, especialmente aquela constituída a partir do envio, aprovação e sanção pela Prefeitura da Lei nº 16.335, de dezembro de 2015.

Esta Lei criou o Programa Municipal São Paulo Afroempreendedor. O objetivo do programa é promover o afroempreendedorismo, “por meio do acesso a crédito e às compras públicas, inclusão e difusão de políticas públicas de desenvolvimento econômico e social direcionadas aos afroempreendedores”.

De acordo com Santos (2016):

Para a execução destes objetivos deverá ser criada a Comissão Especial de Apoio ao Afroempreendedor, sob a responsabilidade da SDTE. Entre os principais objetivos da lei, está a criação da Rede Municipal de Micro e Pequenos Afroempreendedores, com vistas ao intercâmbio e troca de informações sobre o desenvolvimento econômico, especialmente pautado na economia solidária. Serão realizados convênios da prefeitura com o setor privado para fomentar financiamentos, microcrédito e requalificação profissional. O objetivo é incentivar programas relacionados à abertura de empresas e disponibilidade de financiamentos e empréstimos. Um aspecto chave é facilitar a obtenção de crédito. (...) Serão realizadas políticas de requalificação profissional, de abertura de micro e pequenas empresas e capacitação em cooperativismo. (...) O programa abrangerá a questão do microcrédito. A criação de uma rede municipal de micro e pequenos afroempreendedores é um dos principais pontos da lei. Por intermédio desta rede, afroempreendedores terão acesso às informações (...) Outro importante instrumento para apoiar o afroempreendedorismo é o Portal São Paulo Diverso, vinculado à Política Municipal de Afroempreendedorismo. Lançado em setembro de 2015, trata-se de plataforma eletrônica com informações e serviços sobre a população afrodescendente da cidade de São Paulo. O programa visa a inclusão racial na cidade. É uma parceria entre a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Microsoft. O portal divulga informações gerais sobre programas de ações afirmativas nos setores público e privado e aproxima candidatos e empresas. Com o portal, procura-se reverter o problema de empregabilidade. Ele deve funcionar como um espaço permanente de debate para a população negra.


3.   Iniciativas da Sociedade Civil

Assim, quando nos referimos ao empreendedorismo negro, ou afroempreendedorismo, não estamos tratando apenas de iniciativas individuais, com objetivos e resultados também individuais. Claro, a ação empreendedora é eminentemente ligada a um ato individual de tomada de risco e de soluções para o mercado. Mas, no caso do afroempreendedorismo, este ato individual e empresarial, que caracteriza a atividade mercantil e de negócios, costuma caminhar junto com o ato coletivo, no sentido de junção de esforços de indivíduos que interagem para enfrentar juntos a pobreza, o racismo, o desemprego, a violência. Para isso, eles tomam a consciência da sua própria existência como negros(as) trabalhadores(as) e, muitas vezes, moradores(as) de favela.

Neste sentido, há um sem-fim de casos de iniciativas de empreendedores negros que acreditaram, tomaram decisões, executaram ações de impacto e estruturaram empreendimentos afroempreendedores, alguns deles com sucesso – embora, assim, como acontece com qualquer empreendedor, o risco do insucesso do negócio existe e não é pequeno.

Entretanto, no caso do afroempreendedorismo, cabem, a partir da tomada de consciência e possibilidade de transformação do negro de sua própria condição de desigualdade, a elaboração e execução de ações de apoio à formação, profissionalização, fomento e incentivo a novos talentos, entre outras. E isto, frise-se, mesmo na impossibilidade de participação do Estado como agente indutor, como acontece com no caso do Estado brasileiro hoje, cujo governo que assumiu em 2019 dá sinais de dar menos importância das políticas afirmativas para negros, mulheres, índios entre outros.

Dentre tantas iniciativas recentes de apoio à promoção do afroempreendedorismo, destacamos as que se seguem.

     CUFA - Central Única das Favelas

Originária do Rio de Janeiro, há cerca de duas décadas, fruto do movimento de jovens artistas do Hip Hop (muitos deles negros), a Central Única das Favelas, ou CUFA, teve entre seus fundadores o produtor de eventos e promotor do ativismo social em favelas e periferias, Celso Athayde, e o rapper, escritor e ativista, MV Bill. Além disso, desde a constituição da CUFA, a diretoria contou com lideranças que são referências como a também rapper, apresentadora e ativista social Nega Gizza.

A Central Única das Favelas considera-se como promotora de tecnologia social de ponta. Em sua página eletrônica a entidade descreve desta maneira o seu perfil de ativismo:

A CUFA promove atividades nas áreas da educação, lazer, esportes, cultura e cidadania, como grafite, DJ, break, rap, audiovisual, basquete de rua, literatura, além de outros projetos sociais. Além disso, promove, produz, distribui e veicula a cultura hip hop através de publicações, discos, vídeos, programas de rádio, shows, concursos, festivais de música, cinema, oficinas de arte, exposições, debates, seminários e outros meios. São as principais formas de expressão da CUFA e servem como ferramentas de integração e inclusão social.

Há dez anos coordenador estadual no Ceará, Francisco José Pereira, o Preto Zezé, recebeu, em 2014, o comando nacional da organização, que até então tinha como presidente MV Bill. Em 2015, Preto Zezé tornou-se o Presidente Global da CUFA que já se estende para 16 países e tem sede internacional no Harlem, o maior bairro negro de Nova York.

Preto Zezé é produtor musical e cultural, rapper e empresário na área de desenvolvimento econômico. Também escritor, lançou seu segundo livro no início de julho pela editora Cene:“Das quadras para o mundo.” A obra trata de sua vivência como ativista social. São crônicas de sua trajetória de vida nas comunidades e sua história e experiências na Presidência da CUFA.


A CUFA é detentora de vários prêmios, inclusive da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). A entidade desenvolve ainda um importante trabalho de reinserção de detentos na sociedade.

Outa iniciativa que dialoga com as necessidades das comunidades é a criação de um cartão pré- pago para pagamentos de contas, saques e outros serviços bancários, que, ao não exigir consultas ao Serasa ou SCPC, viabiliza a inserção financeira dos moradores das favelas: O CUFA Card (CUFA, 2019).

Entre os vários projetos na área de empreendedorismo, destacam-se, por exemplo, a parceria firmada, em 2015, entre a CUFA e o Facebook, visando à capacitação de empreendedores de favelas cariocas por técnicos do Facebook, que ensinam como utilizar adequadamente os recursos desta tecnologia e mídia social para alavancar negócios. Em 2015, 10 favelas cariocas receberam a Facekombi, com instrutores do projeto. Naquele ano, foram treinados 3,8 mil de alunos. A parceria deu um novo passo, em setembro de 2017, com o projeto “Maratona Nacional de Empreendedorismo”. O Facekombi foi estilizado com desenhos de casos de sucesso envolvendo instrutores e ex-alunos. O facekombi partiu do Rio de Janeiro para diversas outras localidades do País (sendo a primeira parada a cidade de Salvador). De acordo com a Revista Fórum:

Além de parar nos grandes centros, a proposta da iniciativa é passar também por pequenas cidades, quilombos e aldeias indígenas, capacitando pessoas que têm, historicamente, menos acesso à informação. Segundo [o], diretor da CUFA, o projeto passará por uma ampliação. ‘A ideia é expandir agora o projeto que começamos há dois anos em Madureira e em favelas cariocas junto com o Facebook, levando informação a mais comunidades pelo Brasil. Para acompanhar a Kombi durante todo o percurso, os interessados devem acessar a página no Facebook da “Maratona Facebook de Empreendedorismo”. Os cursos oferecidos em Madureira continuarão funcionando. A duração de cada curso é de quatro horas, e eles são oferecidos quatro dias por semana.

A CUFA promove outros diversos eventos no campo do empreendedorismo, como o realizado juntamente com o Ministério da Cultura, sobre empreendedorismo cultural e economia criativa. Este evento reuniu jovens talentos, líderes comunitários, artistas e empreendedores culturais da periferia, além de representantes da iniciativa privada.

     Favela Holding

Após deixar a diretoria da Central Única das Favelas, o empreendedor Celso Athaíde deu origem a novas iniciativas. Uma delas a criação da Favela Holding, ou FHolding.

A Favela Holding é um conjunto de empresas que tem como objetivo central o desenvolvimento de favelas e de seus moradores. A FHolding nasce atuante junto a empreendedores comunitários, fomentando e promovendo novas oportunidades de negócios, empreendedorismo e empregabilidade.

Entre as empresas que participam hoje do projeto estão Afro Oportunidades, Favela log, InFavela, Chapa Preta, Favela Vai Voando, Recomeço e Data Favela.

Um anúncio de parceria que chamou a atenção recentemente, e que teve empresas da Favela Holding a frente da iniciativa, é aquela firmada entre a CUFA e a Uber, parceria esta iniciada pela Favela do Heliópolis. A parceria, que teve a frente as empresas InFavela (agência de live marketing) e a Comunidade Door (instalação de outdoors em favelas) consiste na instalação de Parklets na favela, e que, de acordo com o site www.fholding.com.br, tem como objetivo “garantir maior e melhor acesso da população local à plataforma de mobilidade, estimular os moradores a aproveitarem as oportunidades de trabalho que o aplicativo oferece e, assim, desenvolver o empreendedorismo local e ao mesmo tempo melhorar a mobilidade da favela (...).

Ainda de acordo com o site da Favela Holding:


Por meio da parceria, equipes da CUFA e da Uber realizaram uma série de reuniões com lideranças e instituições de Heliópolis para entender as principais demandas da região. Foram identificadas inicialmente duas necessidades principais: melhorar a experiência das pessoas que querem utilizar o aplicativo e apresentar para os moradores novas oportunidades para geração de renda, seja dirigindo com a Uber, fazendo entregas ou empreendendo com o UberEats. "Precisávamos de um parceiro que pudesse nos ajudar nesse projeto de levar oportunidades para as pessoas de Heliópolis de forma simples, colaborativa e inclusiva, e que ao mesmo tempo conseguisse nos ajudar a causar um impacto positivo sobre a mobilidade do dia a dia. A Uber foi uma escolha lógica, porque é uma empresa que pode colocar a sua tecnologia a esse serviço e desenvolver com a gente uma série de projetos e iniciativas de longo prazo", afirma Celso Athayde,            fundador da                CUFA e CEO           da           Favela           Holding. São 4 pontos de embarque em locais de fácil acesso e que ficam a, no máximo, 7 minutos de caminhada de qualquer local da comunidade. Nas rodas de conversa com representantes da favela, identificou-se que erros nos mapas digitais, aliados a ruas estreitas, faziam com que a experiência de pedir um carro na comunidade não fosse satisfatória. "Inserimos no aplicativo uma tecnologia que orienta o usuário para os pontos de embarque, a partir do momento que ele solicita a viagem. Ele poderá escolher um dos quatro pontos no próprio aplicativo e caminhar até o local para encontrar o motorista parceiro. Assim, melhoramos a experiência e tornamos o serviço acessível para todos", afirma Fabio Plein, gerente geral da Uber para São Paulo.

     O BID e o projeto “Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro- brasileiros”

Em setembro de 2016, o BID, nos marcos do projeto denominado Afro-Brazilian Consumer Market Entrepreneurship Support Program (Programa Afro–Brasileiro de Apoio ao Empreendedorismo no mercado de Consumo), lançou o projeto Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-brasileiros, que objetiva favorecer a formação de um ambiente de aceleração de novos negócios de empreendedores negros, bem como aproximar estes empreendedores dos investidores potenciais. O programa, segundo o veiculado na mídia, conta com investimentos iniciais da ordem de R$ 1,6 milhão. Entidades como Sebrae e Endeavor são parceiros em áreas como capacitação.

Para elaborar o programa, o BID partiu de levantamento sobre empreendedorismo no Brasil. O levantamento, que toma como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013 realizada pelo IBGE, mostrou que:

Em 2013, existiam cerca de 11 milhões de negros proprietários de empreendimentos, dos quais 1 milhão deles efetivamente contavam com pelo menos um funcionário;

Do total de 11,8 milhões de negros empreendedores, 54% têm no máximo o ensino fundamental completo ou incompleto e 5% têm ensino superior completo ou mais. No caso dos gestores brancos, a parcela que cursou ensino superior e concluiu a graduação é de 19%;

De cada dez empreendedores negros ativos no Brasil, nove ocupam a base da pirâmide do empreendedorismo.

Em reportagem do Estado de SP, de 29/9/2016, assim se manifestou o diretor da Endeavor, uma das entidades parceiras no programa:

Não há suporte ao dono de negócio [o empreendedor negro] que não consegue entrar no circuito de investimentos que engloba startups. Existe preconceito. O mundo empresarial tem uma imagem de que o empreendedor é branco, possui ensino superior e fala diversos idiomas, por exemplo. A realidade, na prática, é outra. De um lado temos um sistema que não dá suporte, que repele as minorias de se misturar a um mainstream.

     Black Money

Outra iniciativa importante dos afroempreendedores é o Black Money, o “Dinheiro Preto”. Este movimento criado no século XX se popularizou nos Estados Unidos, e buscou fazer com que o povo preto circulasse ente si serviços de consumo, fortalecendo valores e consciência intelectual,


financeira e social para essa comunidade. Ampliando investimentos, retirando recursos de bancos tradicionais e transferindo-os para “bancos pretos” como forma de identidade e empoderamento pela via das finanças com autossustentação preta (MOVIMENTO BLACK MONEY,2019).

Criado no Brasil em novembro de 2017, o movimento é explicado pela CEO Nina Silva, em entrevista divulgada no site oficial:

É um hub de inovação em que a principal atividade é trazer autonomia para a população negra a partir do mindset tecnológico, finanças e inserção do olhar de startup focado em empreendedorismo. Na prática, consiste em sermos nossos próprios investidores, uma vez que o negro tem o crédito três vezes mais negado nas instituições financeiras. O objetivo é que pelo menos 30% do que for consumido pelos afrodescendentes se mantenha na comunidade, já que negros somam 2/3 dos desempregados. (...) Essa mudança (...) deve acontecer através da inclusão nas empresas. Mas existe outro caminho da autonomia junto ao consumo intencional, que é o investimento na própria comunidade. Por meio da educação financeira esses negócios podem prosperar. Se o consumo da população negra vem aumentando, para onde vai esse dinheiro? De acordo com dados do instituto Locomotiva, nós consumimos R$ 1,7 tri em 2017, mas não conseguimos que esse dinheiro retorne aos empreendedores negros. (...) Não são apenas pessoas negras que podem praticar o blackmoney, mas todos os aliados que querem ajudar a melhorar as discrepâncias raciais. É possível investir ou consumir de empreendedores negros. As empresas podem ter fornecedores negros, contratar mais negros e, assim, contribuir para que a cadeia de suprimentos fique cada vez mais enegrecida. Um sistema empresarial com maior diversidade étnico-racial é mais ágil e transformador e ainda possui sua lucratividade aumentada em 33% – segundo estudos da McKinsey. A ideia é que a gente possa ser nosso próprio agente de transformação e que não precise pedir por inclusão e igualdade, porque isso demoraria muito para corrigir a situação atual de desigualdade social no país.

Em suma, o Black Money busca estimular o consumo e a prestação de serviços no circuito da própria comunidade negra. A estratégia consiste na circulação do dinheiro entre os próprios afrodescendentes pelo maio tempo e amplitude possível.

Diante das críticas que podem surgir no sentido de que este movimento pode gerar uma nova forma de segregação, a CEO contra-argumenta: “racismo é estrutura de poder e nós negros não temos acesso a ele. Eu não estou tirando poder de ninguém simplesmente porque nunca tive”.

     A Feira Preta e o Afro Hub

Há ainda as feiras afroempreendedoras, com destaque para a Feira Preta, reconhecida como maior e mais conhecido evento de empreendedorismo de negros do país e da América Latina, sendo um espaço autossustentável da comunidade negra. Os negócios são realizados entre todos os visitantes da feira, mas o protagonismo dos expositores é negro, e, em geral, o trabalho se faz em rede (FEIRA PRETA, 2019).

A Feira Preta, que costuma ocorrer no mês de novembro (no qual se celebra o Dia da Consciência Negra) teve sua primeira edição no ano de 2002, no formato de feita de produtos empreendedores negros. Com o seu crescimento, tornou-se um festival, de atrações nacionais e internacionais, e na qual são expostos diversos produtos, serviços e atividades negros (como diz o site da  entidade, “do empreendedorismo, da tecnologia à literatura, da música às artes digitais, passando também pelos painéis com o que há de mais urgente e futurista nas reflexões da existência preta”).

A Feira Preta fechou em 2018 importante parceria com o AfroBusiness e a Diáspora.Black, que resultou na criação do programa Afro Hub. De modo geral, a parceria visa estimular networking e aumentar os negócios com o uso da tecnologia por parte de empreendedores negros. Assim, o programa Afro Hub prevê:

Seleção de empreendedores que passarão por pré-aceleração e treinamentos em tecnologias e ferramentas avançadas do Facebook e Instagram;

Mentorias com especialistas no assunto;


Promoção de eventos gratuitos a empreendedores organizados pela Feira Preta, AfroBusiness e Diáspora.Black, visando fomentar o networking em seus empreendimentos;

Realização de workshops gratuitos com a finalidade de atualizar os empreendedores negros quanto ao uso das redes sociais como estratégia para alavancar os negócios;

Palestras de especialistas em gestão e negócios disruptivos.

Baseado em dados da PNAD do IBGE, o Instituto Locomotiva indica que, no Brasil, são mais de 5,8 milhões de empreendedores negros com acesso à internet. Estes empreendedores negros circulam aproximadamente R$ 219,3 bilhões.

     Economia Solidária e Afroempreendedorismo

A economia solidária tem, entre os seus princípios, a democratização das relações de produção, a igualdade na distribuição de resultados, a solidariedade e a inclusão social. Por conseguinte, a economia solidária é bastante aderente às ações voltadas ao fomento do afroempreendedorismo. Neste sentido, vem crescendo, nos últimos anos, o número de ações de economia solidária voltada ao empreendedorismo dos negros.

Uma das recentes ações que vale destacar é a Feira de Economia Solidária de Empreendedores Negros que ocorre, anualmente, no Pelourinho, em Salvador desde 2016. São expostos produtos e serviços de diversas áreas, como estética, roupas, sapatos, acessórios, alimentos, entre outros. A feira é fruto de uma parceria entre diversas entidades ligadas ao movimento negro. Não há custos para os expositores.

Outra ação importante na área da economia solidária foi a formalização, em 2015, da Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop, constituída por 16 Casas da Cultura Hip Hop e empreendimentos solidários distribuídos em vários Estados (Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Espírito Santo). A Rede formalizou-se como membro da Economia Solidária ao constituir-se como Cooperativa de Arranjos Produtivos e Comercio Justo e Solidário Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop. Segundo Bob Controversista, primeiro presidente nacional da Cooperativa:

A Economia Solidária traz a concepção de arranjos produtivos com sustentabilidade e colaborativismo para gerar emprego e renda. Sem hierarquizar ou fomentar a concorrência crua entre os coletivos e sim, criar condições para que as pessoas possam sobreviver de maneira igualitária e justa dentro da Rede”. (...) [a Rede Nacional de Casas do Hip Hop, a primeira cooperativa nacional de cultura do país] se trata de uma rede de produção, distribuição e gerenciamento orgânico, somando expertises, conhecimento de mercado e plano de negócios, alinhados com a economia solidária. Assim, forma-se um arranjo produtivo que fazem os produtos girarem interna e externamente, pois o mais importante é dar vazão aos produtos do universo Hip Hop que o mercado capitalista normalmente não absorve

A Cooperativa faz parte da Unisol Brasil - Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários.
     Projeto Brasil Afroempreendedor

Constituído em 2013, o Projeto Brasil Afroempreendedor é uma parceria entre o SEBRAE, o Instituto Adolpho Bauer (IAB), o Coletivo dos Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros de São Paulo (CEABRA/SP) e a Associação Nacional dos Coletivos de Afroempreendedores (ANCEABRA), que tem no comitê gestor organizações da sociedade civil e o governo federal.
Até 2015, em 12 estados brasileiros, seriam realizadas ações de capacitação e formação de micro e pequenos empresários e de empreendedores individuais afro-brasileiros (incluindo comunidades negras remanescentes de quilombo).

Os empreendedores seriam apoiados por técnicos e especialistas que ajudariam na elaboração (ou readequação) do plano de negócios, e estes empreendedores passariam a se integrar a uma


Rede Nacional de Afroempreendedores (que teria como foco a troca de experiências e desenvolvimento de negócios solidários).

O projeto tinha um objetivo bastante ambicioso: ser um projeto piloto “para o desenvolvimento de uma proposta de Política Pública Nacional de Fortalecimento do Afroempreendedorismo Brasileiro”.

O projeto, ao que parece, sofreu descontinuidade em suas ambiciosas metas iniciais.

4.   O Afroempreendedorismo no Grande ABC

Nesta parte, voltamos nosso olhar para o Grande ABC Paulista, buscando identificar o número de empreendedores negros na região, bem como levantar as ações (ou ausências) de políticas públicas especificamente voltadas ao afroempreendedorismo.

Tabela 1 – População Economicamente Ativa[3] por raça / Brasil / São Paulo e ABC


VARIÁVEL
População Economicamente Ativa (PEA)
População Não Economica-
mente Ativa
População Economicamente Ativa (PEA)
População Não Economica-
mente Ativa
População Economicamente Ativa (PEA)
População Não Economica-
mente Ativa

Branca
Negra (Pretos e Pardos)
OUTROS
Brasil
46.018.034
31.397.369
46.099.864
35.965.738
1.385.585
1.081.261
São Paulo
13.706.878
9.022.068
7.599.676
4.812.685
333.182
234.311
Grande ABC
846.431
549.202
502.013
292.509
21.786
15.267
Diadema
96.768
60.588
105.222
61.903
2.407
1.702
Mauá
117.998
80.897
94.361
60.418
2.335
1.387
RPires
35.617
26.801
21.173
13.761
785
644
RGSerra
9.518
6.761
12.581
7.862
171
145
Santo André
254.677
167.532
113.269
58.633
5.847
4.181
SBCampo
261.629
161.534
143.046
84.207
8.763
6.095
SCSul
70.224
45.089
12.361
5.725
1.478
1.113
Elaborado pelos autores para o Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS a partir de dados do CENSO 2010 (IBGE 2019).

A partir dos números absolutos apresentados na Tabela 1, é possível se chegar aos números relativos. Assim, a PEA de negros em âmbito nacional representa 28,5% e a de brancos 28,4%. Em São Paulo os negros representam 21,3% da PEA e os brancos 38,4%.

Na Região do Grande ABC, a População Economicamente Ativa é formada por 36,6% de negros  e 61,8% de brancos. Quando olhamos para a realidade de cada município da região, não há homogeneidade: Rio Grande da Serra, por exemplo, possui 34,0% da PEA formada por negros, enquanto São Caetano do Sul possui 8,4%. Na sequência, Diadema tem 32,0% da PEA constituída por negros; Mauá apresenta 26,4%; São Bernardo do Campo, 21,5%; Ribeirão Pires, 21,4% e; Santo André, 17,5%.

A Tabela 2 mostra como esta população economicamente ativa está dividida.


Tabela 2 – Características da População – PEA por raça /cor – CENSO 2010

Brasil / Estado/ Município
Posição na ocupação principal do trabalho
BRANCA
NEGROS
OUTROS
Total

Brasil
Empregado
27.767.620
28.028.249
729.384
56.525.253
Empregador
1.292.369
369.605
41.156
1.703.130
Conta Própria
9.730.492
8.490.276
308.222
18.528.990

São Paulo
Empregado
9.177.713
5.525.664
184.991
14.888.368
Empregador
388.278
47.444
21.238
456.960
Conta Própria
2.513.193
1.054.788
88.526
3.656.507

Grande ABC
Empregado
585.190
349.684
158.309
1.093.183
Empregador
21.929
3.176
65.308
90.413
Conta Própria
136.380
62.132
204.547
266.679

Diadema
Empregado
70.471
78.807
1.531
150.809
Empregador
964
605
44
1.613
Conta Própria
13.333
11.781
494
25.608

Mauá
Empregado
84.520
66.875
1.398
152.793
Empregador
1.117
407
152
1.676
Conta Própria
16.159
11.537
496
28.192

Ribeirão Pires
Empregado
23.635
14.751
503
38.889
Empregador
730
94
20
844
Conta Própria
5.444
3217
197
8.858

Rio Grande da Serra
Empregado
6.530
1681
83
8.294
Empregador
86
46
0
132
Conta Própria
1.172
1105
72
2.349

Santo André
Empregado
171.246
77.370
3.029
251.645
Empregador
7851
540
531
8.922
Conta Própria
44.991
13.388
2380
60.759

São Bernardo do Campo
Empregado
182.964
103.908
5.275
292.147
Empregador
7.289
1.291
609
9.189
Conta Própria
41.393
19.189
2.041
62.623

São Caetano do Sul
Empregado
45.824
6.292
781
52.897
Empregador
3.892
193
214
4.299
Conta Própria
13.888
1.915
355
16.158
Elaborado pelos autores para o Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS, Conjuscs, a partir de dados do CENSO 2010 (IBGE 2019).

Conforme observado, o IBGE subdivide a população economicamente ativa (PEA) em empregados (trabalhadores com e sem carteira assinada); empregadores (que possuem pelo menos um empregado); e conta própria (que não possuí empregados).

Os números de empregadores e por conta própria somados representam, portanto, uma aproximação da população empreendedora, denominada pelo SEBRAE, de “donos do negócio”4,5.

Desta forma, partindo-se dos números absolutos apresentados na Tabela 2, é possível chegar aos números relativos. Assim, na Região do Grande ABC, os negros representavam, em 2010, um contingente de 28,2% da população empreendedora total. A população branca representava 68,5%.


Embora minoritário, é, pois, expressivo o percentual de empreendedores negros na região do Grande ABC. Isto reforça a necessidade de uma estrutura de política pública regional, bem como de iniciativas da sociedade civil, que busquem apoiar os afroempreendedores e seus empreendimentos na região.

Por fim, cumpre registrar que, apesar do número significativo de empreendedores negros na Região do Grande ABC, especialmente os que trabalham por conta própria, não há registro, conforme levantamento que fizemos e exposto no Quadro 1, da aprovação de legislações específicas voltadas a apoiar o afroempreendedorismo - assim como também acontece na grande maioria dos municípios e Estados do País.


Quadro 1 – Leis em favor do Afroempreendedorismo

São Paulo capital
Decreto nº 57.259, de 26 de agosto de2016
Instituiu o Programa Municipal São Paulo Afroempreendedor
Vigente
Estado de São Paulo
Projeto de Lei nº 791, de junho de 2019
Institui o "Programa Estadual de Fomento ao Afroempreendedorismo, no Estado de SP".
Tramitando
Goiás
Lei nº 19.392, de 11 de julho de 2016
Institui a Política Estadual de Incentivo ao Afroempreendedorismo
Vigente
Distrito Federal
Decreto 36680 de 18/08/2015
Institui o Programa Afroempreendedor e dá outras providências
Vigente
Santo André
Projeto de Lei 80/17 de 14 de junho de 2019, que dispõe sobre a criação do Programa Municipal Santo André Afroempreendedor e dá outras providências.
–Vetado na 36ª Sessão Ordinária realizada na tarde de quinta-feira (13/06/2019).
Vetado
São Bernardo

Nada consta
São Caetano

Nada consta
Diadema
Lei Municipal nº 3.596, de 02 de maio de 2016
Instituto Programa Municipal Diadema Afroempreendedor, e dá outras providências.
Vigente
Mauá

Nada consta
Ribeirão Pires

Nada consta
RGSerra

Nada consta
Elaboração própria dos autores para o Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura, CONJUSCS.

Com exceção do município de Diadema, que aprovou a Lei N° 3596/ 2016 de apoio ao Programa, nenhum outro município tem Lei de apoio ao afroempreendedorismo. Por conseguinte, é necessária uma mudança de postura e atitude por parte do executivo, das Câmaras de Vereadores, Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, entre outros órgãos regionais. Além disso, é fundamental a intensificação do envolvimento e das contribuições das empresas, sindicatos e universidades na construção e execução das políticas e iniciativas em prol do afroempreendedorismo.


Notas

1  Para um levantamento das várias dimensões que envolvem o tema do afroempreendedorismo no Brasil, recomenda-se ARMAN (2015); BID (2019); CAMPOS (2018); JÚNIOR e DAFLON (2014);MONTEIRO (2001); NASCIMENTO (2018); NOGUEIRA (2013); OLIVEIRA (2018); OLIVEIRA (2004);
SANTOS (2005); SILVA (2018); SILVA (2017); SIMÃO (2018).

2   Algumas das experiências e interpretações sobre o empreendedorismo negro no cenário internacional pode ser obtida em BOSTON (2002); BUTLER (2012); GREEN e PRYDE, (1989); KOELLINGER e MINNITI (2006); WALKER (1986 e 2009).

3  População Economicamente Ativa: Pessoas de 10 anos ou mais de idade (IBGE, 2019).

4   Estudo do SEBRAE denomina “donos do negócio” o que o IBGE classifica na PNAD como empregador e conta própria.

5  Denomina-se empreendedor no levantamento da PNAD os que trabalham por conta própria e os empregadores.



Alessandra Santos Rosa. Mestra em Administração. Graduada em Economia (USCS). Atuou como Professora Auxiliar na USCS e Professora na Univ. Anhanguera (administração, engenharia e cursos tecnólogos). Foi assessora econômica na Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo do Campo; Coordenadora de Desenvolvimento Econômico em São Paulo. É Diretora de Inovação em Hortolândia na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Turismo e Inovação. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4077500398552186.

Jefferson J. da Conceição. Coordenador do Observatório CONJUSCS. Graduado em Economia pela UFRJ; Mestre em Administração pelo IMES; Doutor em Sociologia pela USP. Assessor da Pró-reitoria de Graduação e Prof. da USCS. Prof. Colaborador do Mestrado em Economia da UFABC. Secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo (2009-2015). Superintendente do SBCPrev (2015-2016). Diretor da Agência São Paulo de Desenvolvimento (2016). Economista do Dieese (1987-2009). Blog: www.blogdojeff.com.br. Curriculo Lattes http://lattes.cnpq.br/2840533692107428.

Vânia Viana. Graduada em Ciências do Trabalho pela Escola Dieese. Assessora da CUT Brasil, nas secretarias de Mulheres, Meio Ambiente, Combate ao Racismo e Vice-Presidência de 2007 a 2018.  Extensão  universitária  em  Política  e   Sindicalismo   Internacional   CESIT   –   UNICAMP. Pesquisadora nas temáticas de raça, gênero e ambientais no Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. É também Sommelière formada pela ABS São Paulo.

Referências Bibliográficas

ARMAN, Ana Paula. Empreendedorismo entre mulheres negras na cidade de São Paulo. Revista de Administração do Unisal, v. 5, n. 8, 2015.

BID - BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO. Afro-Brazilian Consumer Market Entrepreneurship Supportprogram – Disponível em: https://www.iadb.org/en/project/BR-T1301. Acesso em: 25 de maio 2019.

BOSTON, Thomas D. Affirmative action and black entrepreneurship. Routledge, 2002.

BRASIL AFROEMPREENDEDOR REVISTA. Desenvolvimento e Igualdade racial: o caminho do futuro. Projeto Brasil Afroempreendedor. 2016.


BUTLER, John Sibley. Entrepreneurship and self-help among black Americans: A reconsideration of race and economics. Suny Press, 2012.

CAMPOS, Amanda Alves. A valorização do negro no Brasil e o afroempreendedorismo. 2018.

CUFA – Central Única das Favelas. Sobre a Cufa. Disponível em: https://www.cufa.org.br/sobre.php . Acesso em: 26/06/2019.

FAVELA HOLDING. Quem Somos: https://www.fholding.com.br/. Acesso em: 26/06/2019.

FEIRA de Economia Solidária reúne empreendedores negros no Pelourinho em Salvador. G1. 9 set. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2018/09/09/feira-de-economia-solidaria-reune- empreendedores-negros-no-pelourinho-em-salvador.ghtml.

FEIRA PRETA. O que é? Disponível em: http://feirapreta.com.br/. Acesso em: 06 de junho de 2019. FRENTE FAVELA BRASIL. Partido Político: http://www.frentefavelabrasil.org.br/index.php#about. GREEN, Shelley; PRYDE, Paul L. Black entrepreneurship in America. Transaction Publishers, 1989.

JÚNIOR, João Feres; DAFLON, Verônica Toste. Políticas da igualdade racial no ensino superior. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense, n. 5, p. 31-44, 2014.

KOELLINGER, Philipp; MINNITI, Maria. Not for lack of trying: American entrepreneurship in black  and  white. Small Business Economics, v. 27, n. 1, p. 59-79, 2006.

MONTEIRO, Jorge Aparecido. O empresário negro: histórias de vida e trajetórias de sucesso em busca da afirmação social. Produtor Editorial Independente, 2001.

MOVIMENTO             BLACK            MONEY.            Nossa            História.            Disponível            em: https://movimentoblackmoney.com.br/quem-somos/ Acesso em: 06 de junho de 2019.

NASCIMENTO, Eliane  Quintiliano.  Afroempreendedorismo  como  estratégia  de  inclusão  socioeconômica. Anais do Seminário de Ciências Sociais, v. 3, 2018.

NOGUEIRA, João Carlos (org.). Desenvolvimento e Empreendedorismo Afro – Brasileiro: Desafios históricos e perspectivas para o século 21. Atilende. Florianópolis, 2013.

OLIVEIRA, Bruno. BID lança programa para atacar o racismo no empreendedorismo brasileiro. O Estado. https://pme.estadao.com.br/noticias/geral,programa-tenta-diminuir-preconceito-nas-empresas,20000000193

OLIVEIRA, Danilo Senen Cavallieri de. Fintechs e inclusão financeira: o caso da implementação de uma plataforma digital de pagamentos em favelas do Rio de Janeiro e São Paulo. 2018. Tese de Doutorado.

OLIVEIRA, Taís Silva. Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: breve estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil1.

PERERA, Luiz Carlos Jacob et al. Missão: formar empreendedores. Encontro Nacional da ANPAD. Anais, 2004.

RME – Rede Mulher Empreendedora. Programa de aceleração a empreendedores negros é lançado com apoio do Facebook. Disponível em: https://rme.net.br/2018/06/05/programa-empreendedores-negros/ SANTOS, Artur Henrique da Silva. Desenvolvimento, Trabalho e Inovação: a experiência da Cidade de São Paulo (2013-2016). São Paulo: Editora da Fundação Perseu Abramo, 2016.

SANTOS, Gevanilda; DA SILVA, Maria Palmira. Racismo no Brasil: percepções da discriminação e do preconceito racial no século XXI. Editora Fundação Perseu Abramo, 2005.


SILVA, Dias Tatiane. Gestão Pública na Zona do Não ser: Políticas Públicas, Igualdade Racial e Administração Pública no Brasil. Revista Administração Pública e Gestão Social. Abril/2018.

SILVA, Jéssica Cristina Fernandes da. Empreendedorismo e identidade afrodescendente: o caso da REAFRO. 2017.

SIMÃO, João Carlos Ngila. Afroempreendedorismo: perfil dos afroempreendedores da região do Rio Grande do Sul e quais os impactos de pertencer a uma rede de afroempreendedores: estudo de caso Reafro/RS. 2018.

UNISOL    BRASIL.    Central    de    Cooperativas    e    empreendimentos    solidários.    Disponível   em: http://www.unisolbrasil.org.br/ Acesso em 06 de junho de 2019.

WALKER, Juliet EK. Racism, slavery, and free enterprise: Black entrepreneurship in the United States before the Civil War. Business History Review, v. 60, n. 3, p. 343-382, 1986.


WALKER, Juliet EK. The history of black business in America: Capitalism, race, entrepreneurship. UNC Press Books, 2009.

sábado, 25 de maio de 2019

O OBSERVATÓRIO DE POLÍTICAS PÚBLICAS, EMPREENDEDORISMO E CONJUNTURA DA USCS E AS CARTAS DE CONJUNTURA


Como Coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS, o Conjuscs, gravei este vídeo de 3 minutos, no qual explico o que faz e quais são os objetivos do Observatório. Estamos inaugurando também uma série de gravações para o youtube. A ideia é que cada autor de nota técnica nas Cartas de Conjuntura da USCS exponha sinteticamente o conteúdo das notas. Meus agradecimentos à Giovanna Quintino e equipe pela produção do vídeo.

https://www.youtube.com/watch?v=Jc9tJwW_Gwo&feature=youtu.be&fbclid=IwAR1hn0KzTAzD5cOSE2U3Yuh8v689DAw3h5tABGW_MBHK4tglZTCTxVl40TE

quarta-feira, 1 de maio de 2019

OS DESAFIOS DO FUTURO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA E AS NEGOCIAÇÕES PELA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE INDUSTRIAL NA FÁBRICA DA FORD EM SBC NA VISÃO DE UM DOS SEUS NEGOCIADORES – ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DO INSTITUTO TID-BRASIL, RAFAEL MARQUES


Neste 1º de maio, Dia do Trabalho, reproduzimos a seguir a entrevista que eu e a pesquisadora Gisele Yamauchi fizemos com o Presidente do Instituto Trabalho, Desenvolvimento e Indústria - TID Brasil, Rafael Marques, e que foi por nós publicada, na forma de nota técnica, na 7ª Carta de Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul). A entrevista trata dos desafios do futuro da indústria brasileira, dos impactos da decisão do fechamento das operações industriais da Ford no Grande ABC e das negociações pela manutenção da atividade industrial na planta. Vale a pena ler a entrevista dada a qualidade e a profundidade das respostas. Confira


Nota técnica

OS DESAFIOS DO FUTURO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA E AS NEGOCIAÇÕES PELA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE INDUSTRIAL NA FÁBRICA DA FORD EM SBC NA VISÃO DE UM DOS SEUS NEGOCIADORES – ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DO INSTITUTO TID-BRASIL, RAFAEL MARQUES
Jefferson José da Conceição
Gisele Yamauchi

Rafael Marques, o nosso entrevistado, é uma das lideranças que está à frente das negociações para a continuidade da atividade industrial da planta da Ford em São Bernardo do Campo, após o bombástico anúncio pela empresa, em fevereiro de 2019, de encerrar suas operações no Grande ABC. Como se verá nesta entrevista, esta decisão tem enorme impacto na economia do Grande ABC, do Estado de São Paulo e do País. Rafael esteve na sede da Ford, em Dearborn, EUA, juntamente com outras lideranças sindicais, no início de março deste ano, para dialogar com a empresa, buscar reverter a decisão do fechamento ou encontrar soluções alternativas. Isto, por si só, já justificaria a entrevista, que realizamos em 25/3/2019. Rafael Marques tem forte inserção regional. Foi também Presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC nos anos de 2013 e 2014.
Mas nosso entrevistado representa mais do que o líder sindical da Ford que busca defender os empregos na planta fabril e na região do ABC. Ele é uma espécie de figura ponte entre o passado e o futuro da indústria brasileira. Não seria exagerado dizer que lideranças como ele - no empresariado, no meio acadêmico e nas gestões públicas-, se inseridas em conjunto em projetos de envergadura nacional e internacional, podem representar o caminho para a reconstrução da indústria do país em novas bases, mais integrada internacionalmente, atualizada em termos tecnológicos, competitiva e avançada nas relações entre os vários elos que compõem a cadeia produtiva.
Rafael Marques, hoje com 54 anos, carrega uma trajetória fortemente inserida na tradicional e simbólica indústria do Grande ABC. É trabalhador da indústria automobilística. Tornou-se uma das lideranças sindicais da região com larga representatividade e atuação nacional. É metalúrgico na Ford desde 1986, onde ingressou como eletricista de manutenção. Antes, já havia trabalhado em empresas como Villares e GROB. Foi representante da CIPA (1991), Coordenador da Comissão de Fábrica (1998-2005) e do Comitê Sindical da Empresa (2008). No Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, migrou por cargos de direção entre 2008 e 2011 até tornar-se presidente em 2012, cargo que ocupou até julho 2017.
A constituição do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID-BRASIL) em outubro de 2017 representa um marco importante nesta trajetória. A pauta do Instituto é o futuro da indústria no Brasil. Isto remete necessariamente ao aprofundamento de temas como participação do país nas cadeias de valor global, novas tecnologias, arranjos produtivos, Indústria 4.0, novas formas de organização social. Como se verá nesta entrevista, Rafael Marques, com brilhantismo, indica as pontes a serem trilhadas para a conexão entre o passado e o futuro da Indústria.
Entrevistadores: A Ford anunciou em fevereiro de 2019 a decisão de fechar a sua fábrica em São Bernardo do Campo. Você e os representantes sindicais do ABC foram pegos de surpresa com esta decisão?
Rafael Marques: Uma de nossas preocupações era a produção de carros, os problemas com relação ao New Fiesta (carro produzido pela Ford em São Bernardo) e à planta fabril. Estávamos voltados para o problema da produção, especialmente de automóveis, já que o New Fiesta vem perdendo o mercado de maneira muito forte. Nos últimos anos, o preço do carro ficou muito elevado. É baixa a produção de peças deste veículo aqui no Brasil. Isto acentuou a crise, dado o patamar em que chegou o câmbio no país. Os custos do carro “explodiram”.

Entrevistadores: Você quer dizer que este carro da Ford foi projetado para uma determinada taxa de câmbio, e a elevação do câmbio acima das previsões potencializou os custos do carro.

Rafael Marques: Sim. Quando o carro New Fiesta foi projetado, o câmbio era de 1,7 Reais por Dólar. Quando foi lançado, o câmbio já era de 1,9. Depois, o câmbio bateu em 4,0. E, como eu disse, era baixo o índice de conteúdo local de peças no Brasil, muito baixo. Podemos dizer que não foi um investimento completo. Eles não desenvolveram fornecedores no país. Preferiram desenvolver fornecedores globais. Esta era a ideia de Albert Caspers, chairman da Ford Europa. O Alan Mullaly era o Presidente da Ford na época. A Ford fez investimentos, mas estes estavam inseridos em uma estratégia global. A gente sempre alertou que isso era um risco. Afinal, o Brasil tem as suas peculiaridades. É difícil dimensionar a crise econômica, planejar em detalhes, isto é, de modo preciso, um projeto.

Entrevistadores: Qualquer projeto precisa de um horizonte de planejamento e de uma estabilidade das regras do jogo.

Rafael Marques: Sim, é necessário um horizonte. Então, o New Fiesta perdeu força, por conta de custo e preço.

Entrevistadores: E no caso dos caminhões?

Rafael Marques: A produção de caminhões deve continuar. Vão-se buscar os meios para isto, parcerias, mas a produção de caminhão fica.

Entrevistadores: Qual é o caminhão produzido atualmente aqui na fábrica de São Bernardo do Campo?

Rafael Marques: O F-Series e o cargo. O F-series é inclusive um ícone da Ford. Em 2012, 2013, a empresa o tirou de linha e depois retornou com ele, dois anos depois. Alertamos a empresa que este era o único produto que nos conectava com os Estados Unidos. Eles iriam tirar de linha, um absurdo. Tiraram, mas depois ele voltou. Entretanto, ele não voltou com a mesma força de mercado que tinha antes de parar. Estávamos então concentrados em automóveis, quando veio a informação do fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo. E que iria encerrar toda a atividade, inclusive a produção de caminhões. Eu confesso que ficamos bastante frustrados, preocupados. Chegamos a pensar, se a gente não tinha sido um pouco ingênuo, ou se faltou alguma leitura correta da conjuntura.

Entrevistadores: E a que conclusão vocês chegaram?

Rafael Marques: Conversando com algumas pessoas, por exemplo, o Marcos Oliveira, que presidiu a Ford de 2000 a 2007, e hoje preside o Grupo Lochpe, constatamos que ele também ficou surpreso com a decisão. Isto porque se trata de uma fábrica moderna, uma fábrica estruturada em linha com o que se tem no setor, ligeiramente acima da média em termos de estrutura fabril antiga, de muitos anos. Portanto, o fechamento da fábrica não era o esperado. Uma de nossas preocupações era o novo caminhão, o euro 6, para 2023. Tínhamos em caminhões o alicerce para puxar a negociação dos investimentos em novos projetos de automóveis. Era essa a nossa intenção.

Entrevistadores: As informações são de que, no caso do próprio New Fiesta, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e a Comissão de Fábrica tiveram um papel importante na decisão da empresa em realizar os investimentos.

Rafael Marques: De fato. É nesse período, no qual eu estava na coordenação da Comissão de Fábrica, que iniciamos essa discussão. Em verdade, eram dois projetos. Um deles era o automóvel Ka. Em realidade, a segunda versão do Ka. Neste caso o processo envolveu um arranjo local, com a autorização da engenharia da Ford global para que a engenharia da subsidiária da Ford no Brasil pudesse fazer um carro híbrido. Buscou-se uma fusão do projeto do Fiesta, uma segunda versão do Fiesta. Mas seria a primeira versão feita pela engenharia brasileira; e a segunda, em relação ao mundo. Então, aquele Ka é uma fusão dos dois carros, que deu uma dimensão maior. Esse carro durou um tempo no mercado, uns cinco anos. Vendeu bem. Cumpriu o seu papel. Foi um carro que deu escala, rentabilidade. E era baixo investimento. Com uma fusão de plataformas, um arranjo local de engenharia, o carro ficou bonito. Por conseguinte, isto resolveu um problema nosso naquele período. O segundo projeto dessa pauta do sindicato foi o New Fiesta. Claro que houve um remanejamento no período entre os modelos de São Bernardo e os de Camaçari, na Bahia. O Ka era feito aqui e hoje é feito na Bahia. O Fiesta era feito aqui e foi o primeiro carro da Bahia. Depois a Eco Sport. Então, houve essa mistura de plataformas entre São Bernardo e Camaçari. Esta é justamente uma das críticas que o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC tem feito, especialmente quando se olha para o regime automotivo brasileiro. Esse remanejamento entre as plataformas, envolvendo as duas plantas, deixou a planta de São Bernardo do Campo em condição de desvantagem. Veja-se o caso do New Fiesta. Foi o lançamento do Ka, quase dois anos depois que “canibalizou” parte do mercado. Então, junto ao governo, nós estamos buscando também apontar para esta luta. Queremos mostrar para o governo federal que São Bernardo foi prejudicado dentro do contexto do regime automotivo e do regime do nordeste.

Entrevistadores: O que você diz é que o Regime Automotivo do País tem que estimular o surgimento de novas áreas de produção automotiva, mas apoiar também as áreas tradicionais, como o Grande ABC Paulista. É isto?

Rafael Marques: Não tem sentido a fábrica desfazer da parte de caminhões. A produção de caminhões é rentável. Em quase todos os anos a operação fecha com rentabilidade. Isto somente não acontece nos anos em que o mercado sofre crise, como no momento atual, em que a escala de produção vai lá para baixo. Isto também está acontecendo com a Mercedes-Benz, Scania, Volvo. Todo mundo está em crise. A indústria em geral. Não é só a Ford. Conhecemos praticamente todas as montadoras. Elas sabem que em muitos anos elas vão ganhar, mas, perderão em alguns outros anos.

Entrevistadores: Que fatores foram decisivos, a seu ver, para a Ford ter tomado a decisão do fechamento da fábrica em São Bernardo?
Rafael Marques: Em 2017, a Direção da Ford soltou um posicionamento sobre as operações globais. Ali eles definiram que não teriam mais negócios de caminhões. Entretanto, eles disseram que dariam autonomia para as regiões [Direções Regionais] onde há fábricas que produzem caminhões, como é o caso da América do Sul e da Europa, em particular a Turquia. As regiões teriam autonomia para achar alternativa, mas a direção global não colocaria mais recursos. Esse é um fator importante. Outro fator é a instabilidade econômica no Brasil. Não há como negar o peso disto. A crise do Brasil ocorre desde 2015. Trata-se de uma recessão forte. O mercado de trabalho está depreciado. O País está muito instável. São grandes as disputas institucionais de poder. Isto mexe com as operações industriais, que são muito sensíveis aos elementos macroeconômicos. Uma indústria que produz e vende automóveis é muito sensível. A Ford não diz, porque não quer politizar, mas certamente a crise econômica e a crise política pesam. O projeto do New Fiesta tinha que ter gerado rentabilidade, como qualquer projeto privado. Entretanto, a empresa otimizou muito o custo dos investimentos. Eles definiram a estratégia com base em baixo conteúdo local de produção. Então, é um carro que tinha uma curva dimensionada até 2023. O auge da curva, o topo, seria agora. A partir daí entraria em declínio. Era esse o plano. O New Fiesta era para atingir a maior escala em 2018 e 2019. Depois o declínio. A isto se seguiria um novo investimento. O carro teve um ano e meio de produção e escala interessante e depois ele caiu em queda livre, não fez dinheiro. Então a região não conseguiu manter capital, ficou dependente dos aportes da Direção da Ford mundial. Isso nos prejudicou fortemente. Há também uma crise na Ford. A empresa vive uma crise no mundo, com uma alteração grande do seu comando. Em 2018, houve uma mexida importante na cúpula da empresa. Mark Fields, Diretor Executivo da Ford Motors entre 2012 e 2014, tinha o dimensionamento dessa nova onda da tecnologia, de novos produtos, da fábrica do futuro. Mas ele queria fazer uma transição de longo prazo, que resultasse em menos ruído e menos impacto para a marca e para os trabalhadores. Essa tese foi derrotada pelo conselho e foi colocada uma pessoa nova com menos história na Ford. Essa pessoa nova, portanto, chegaria com mais apetite de fazer as coisas como estão acontecendo agora aqui no Brasil, na França, na Rússia, na Alemanha, entre outras localidades.

Entrevistadores: Que outras fábricas estão sendo fechadas?

Rafael Marques: Na verdade, os casos de fechamento são os do Brasil, Rússia e França. Há também um enxugamento forte na Alemanha e corte na área administrativa de até 27%. Este é o tamanho dos cortes. É o que temos conhecimento até agora. Acho, porém, que vem mais cortes por aí. Penso que eles abriram o primeiro front, mas que vão continuar. Houve uma mudança grande em várias áreas na Ford Europa e Ford North America: finanças, engenharia... Nesse momento, ocorrem novas mudanças. Minha avaliação é que se trata de uma direção questionada no mercado financeiro. O fato é que as ações da Ford estavam num patamar de US$ 18,00 variando em torno disso. Com Mark Fields, entre US$ 12,00 e US$ 13,00. Com a Direção atual, US$ 8,00, variando em torno disso. Acho que é uma direção pressionada pelo mercado por resultados. Nesse contexto de “apetite” por resultados, eles colocaram na mira a planta de caminhões. E o investimento não é tão grande para uma empresa como a Ford. Mas infelizmente eles decidiram se livrar daquilo que não é mais prioridade, embora a planta tenha sido quase sempre rentável e contribuído com um quinhão na remessa que o Brasil regularmente envia para os Estados Unidos. Acho que esses são os fatores mais importantes.

Entrevistadores: No início de março, na sequência do processo de mobilizações e ações, você, o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, e o Diretor Sindical da Ford, José Quixabeira de Anchieta (o “Paraíba”), estiveram em Dearborn, Michigan, EUA, para discutir com a alta Direção da Ford a decisão de fechamento da fábrica de São Bernardo, visando buscar alternativas para a sua continuidade e modernização. Como foi esta negociação?

Rafael Marques: Não foi propriamente uma “negociação”. Nós solicitamos, sim, uma reunião ao modo de negociação. Fomos com esse espírito. Mas, lá, encontramos um ambiente fechado com pouco espaço para discussão e negociação. Eles nos receberam, prestaram contas. Fizeram questão de isentar os trabalhadores - mensalistas, horistas, terceirizados, a comunidade em geral – das razões que levaram à decisão de fechamento.

Entrevistadores: Quem os recebeu?

Rafael Marques: O presidente de operações de manufatura. Ele tem um cargo abaixo do Jim Hackett, que é o Diretor Executivo da Ford. Especula-se que deverá ser o próximo presidente. Mas, como disse, foi uma reunião que serviu para eles isentarem os trabalhadores e as relações sindicais das razões do fechamento. Eles afirmaram inclusive que as relações sindicais são das melhores que a Ford tem no mundo. Admitiu erros, isto é, erros de comando de quem acompanha o Brasil nos Estados Unidos e de quem dirige as operações aqui. Há, de fato, vários erros que levaram à ruína da estratégia da Ford no Brasil, especialmente aqui nesta planta de São Bernardo. Ele não enumerou precisamente quais esses erros, mas disse que a Ford não tinha alternativa. A decisão do fechamento foi comunicada ao mercado.  Em tempos de hegemonia do mercado e de financeirização da economia, quando você “diz algo para o mercado” – mercado este que está acima da própria comunidade, de conselhos e das relações diversas – está dito. A ânsia de remunerar o capital aberto é grande. É perceptível a pressão que eles estão sofrendo. Admitiram vários erros, como já expus. E estão cometendo mais um, ao decidirem fechar a fábrica de caminhões. A única abertura que eles nos deram residiu na temática de que outra empresa adquira o parque industrial da Ford em São Bernardo. Existem interessados. Eles nos disseram que iríamos receber visitas de outras montadoras na planta de São Bernardo e que o presidente da Ford na América do Sul, Lyle Waters, é o responsável pelas negociações. Então, o tema de uma nova empresa para ser proprietária da planta é a possibilidade que se tem e vamos torcer para que dê certo e que haja, por parte da Ford mundial, a facilitação com o negócio.

Entrevistadores: Mas há algum termo de compromisso com a manutenção do emprego dos trabalhadores?

Rafael Marques: Esta parte, que nos diz respeito diretamente, envolve um diálogo com as empresas interessadas na aquisição da fábrica. Três fatores podem gerar interesse das empresas que se habilitem a adquirir a propriedade da planta: capital necessário, capacidade técnica e interesse de se manter com a fábrica em São Bernardo. Garantidos esses três fatores, assina-se um termo de confidencialidade. A partir daí a Ford começa a abrir os dados da operação. Esses são os primeiros pressupostos. Então, nós imaginamos que, diante desses pressupostos, o Sindicato vai ter que sentar à mesa com a empresa interessada. Esta conversa não vai ser com a Ford. A Ford não vai querer discutir. Claro, a Ford vai nos apresentar a nova empresa, mas ela, Ford, não vai querer tomar assento nas conversações do Sindicato com a empresa interessada. Se evoluírem mesmo as discussões para a venda da fábrica, veremos como o diálogo do Sindicato e da nova empresa vai avançar também. Reafirmo que há interessados, há duas cartas de confidencialidade já assinadas. Assim, o foco da nossa luta é de discutir as condições do encerramento dessa história, do processo da Ford naquela planta fabril; dialogar com a empresa interessada em adquirir a planta, e, quem sabe, mais à frente, entrar na discussão com a esfera pública.

Entrevistadores: Se efetivado o fechamento da fábrica, 4,3 mil trabalhadores diretos e indiretos na planta ficarão sem emprego. Estudo da Subseção Dieese do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC apontam que isto representa anualmente entre salários e benefícios algo como R$ 600 milhões por ano. Estimativas do Observatório Conjuscs, que considerou também a cadeia de fornecedores, calcula que o valor do impacto com remunerações salariais e benefícios sobe para algo entre R$ 1,2 e R$ 1,4 bilhão por ano. Considerando-se o efeito multiplicador em cadeia, pode-se chegar mesmo a algo como R$ 5 bilhões ao ano, que deixarão de circular na economia. Por volta de 100 mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, serão afetadas diretamente. Portanto, será grande o impacto sobre a cidade de São Bernardo, a Região do ABC, o Estado de São Paulo e o Brasil, em termos de empregos, geração de renda e arrecadação. Neste sentido, como você vê o envolvimento do poder público–Prefeitura, Consórcio Intermunicipal, Governo do Estado e Governo Federal – neste processo de enfrentamento do problema e de busca de soluções e alternativas?
Rafael Marques: Ao que parece, a Ford projetou um cenário para o fechamento da fábrica de São Bernardo em que haveria baixa reação das esferas de governo, a partir, sobretudo, do fato de que os atuais governos têm uma visão mais liberal. A empresa deve ter tomado como pressuposto que a reação seria baixa porque estes governos compartilham da visão de que o setor privado tem todo o direito de tomar esta decisão, sem o envolvimento do estado. Claro que, entre as três esferas de governo (União, Estado e Município), a prefeitura é a que mais iria “espernear”. É ela que sentirá diretamente a queda da arrecadação dos impostos. A maioria das pessoas do conjunto de futuros desempregados, fruto do fechamento da fábrica, mora em São Bernardo. Ao longo da sua história no Brasil, a Ford obteve condições especiais para funcionamento, muito relevantes, que geram um grau de comprometimento da empresa com o Brasil. Estas condições especiais estabelecem um compromisso da Ford com o país. Achamos que nem mesmo as estatais tiveram condições tão favoráveis como a Ford teve no Brasil. Os benefícios do regime automotivo para o Norte e Nordeste, os benefícios do BNDES, as isenções do Programa InovarAuto, os acordos das Câmaras Setoriais, os Acordos Emergenciais, o apoio em infraestrutura, entre outros, soma altos valores. A Ford, inclusive, foi uma das mais rápidas em propor e captar estes incentivos. Ela conseguiu participar do regime do nordeste com a aquisição da empresa Troller. A princípio a Troller não era de interesse. A Ford só mantém aquilo “vivo” por conta do regime do nordeste. Foi uma ação rápida. Ninguém havia pensado nisso; a Ford pensou. Portanto, por todos os números que você listou, que seria o resultado do fechamento dessa planta, acrescido do histórico da Ford no Brasil, tudo isto deveria fazer com que as três esferas de governo entrassem com muita força nesta discussão. As empresas são muito sensíveis à pressão política. O Estado brasileiro, em todas as esferas, incluindo o Judiciário e o Parlamento, deveria se envolver com muita energia, com muita força, com vista a fazer valer os interesses nacionais. Se o jogo é para valer, se é de verdade, a empresa percebe. Ela tem quadros experientes, que sabem como é que as coisas funcionam. Eles estão mobilizando a bancada baiana, para não permitir que o regime do nordeste seja alterado. Nós, do TID-BRASIL, também não queremos que o regime do nordeste seja alterado. Não se trata disso. Trata-se de pressionar politicamente a Ford. Fazer semelhante ao que o governo francês fez com uma fábrica de motores que emprega 800 empregados e que tem uma dimensão muito menor que a de São Bernardo do Campo. Entretanto, se não fosse o estado francês há cerca de dez anos, essa planta estaria fechada há mais tempo. Ela se manteve aberta por mais dez anos, porque o estado pressionou. Somente agora, diante dessa nova direção da empresa, é que voltaram a anunciar o fechamento definitivo da unidade. Mas, reafirmo, são 10 anos a mais fruto desta “batalha”. Aqui, no Brasil, no caso específico de São Bernardo do Campo, as implicações são muito maiores. A Ford é muito mais para o Brasil do que a Ford é para a França, em termos econômicos, sociais e tecnológicos. A fábrica de São Bernardo do Campo foi a primeira a lançar o banco de horas, o regime de layoff, a Participação nos Lucros e Resultados. A fábrica de São Bernardo lançou tendências no mercado automotivo, melhorias tecnológicas em motores, o segmento de SUV, o segmento de comerciais leves. A fábrica tem uma relação com o país que deveria promover posições e reações firmes nas pessoas que dirigem o Brasil. Entretanto, infelizmente, isto não tem acontecido com boa parte do estado brasileiro.

Entrevistadores: Supomos que você faça bastante referência ao Governo Federal, mas e quanto ao Estado e Município?

Rafael Marques: Com relação à Prefeitura de São Bernardo e ao Governo do Estado de São Paulo, existe um acordo sendo construído. O Governador aderiu à tese da venda da unidade fabril para outra montadora. A reação poderia ter sido outra, mas ele aderiu à referida tese. É, nesse momento, uma contribuição do Estado de São Paulo. Trata-se de uma venda para outra montadora. Seria para manter a planta como produtora do setor automotivo. Dificilmente haveria uma conversão da empresa para produzir outro tipo de produto. Até dá para fazer, mas é difícil. Eu mesmo cheguei a pensar em produtos na área da defesa e segurança. Isto, se nada der certo. A gente pensou em vários aspectos. O governador aderiu à tese da venda porque não conversou com a gente. Conversou com a empresa. Tinha que ter conversado conosco antes. Mas não dá para negar que é uma tese. Mais ainda: é a tese que está permeando o debate, que nos foi dito pela direção global. Espero que se torne de fato uma alternativa. Por sua vez, a pressão do Prefeito de São Bernardo do Campo é evidentemente muito mais política. Mas ele tem se colocado no debate. Seria um absurdo ele não se colocar, é claro. Então, está ocorrendo um envolvimento dessas duas esferas, Governo do Estado e Município, em nível mais baixo do que deveria, mas está havendo. O que quis enfatizar é que falta ao atual Estado brasileiro a capacidade de mensurar o alcance dessa decisão da Ford e do seu papel para intervir, e até mesmo alterar, no curso da decisão de uma multinacional.

Entrevistadores: Isto poderia ser um sinalizador de como os países em desenvolvimento podem se relacionar com uma multinacional...

Rafael Marques: Exatamente. E o que deixar de ser feito com a Ford pode levar a outras decisões empresariais semelhantes, pois já se sabe que não haverá tanta resistência. Então, tem que ter resistência, inclusive para impedir que outras empresas tomem uma decisão parecida.

Entrevistadores: Lemos na imprensa que as lideranças sindicais dos Metalúrgicos do ABC denunciam que a Ford está utilizando dinheiro público provenientes de programas que objetivam impulsionar a expansão dos investimentos automotivos no país, em especial nas regiões Norte e Nordeste, para alavancar as despesas diversas (inclusive rescisões) que envolvem o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo. Vocês de fato pretendem travar esta luta?

Rafael Marques: Há um debate em relação a este ponto, que precisa ser construído, e mais comentado no campo jurídico. Havendo sucesso nesta questão da aquisição da fábrica por outra empresa, nós precisaremos avaliar. Nós não estamos querendo prejudicar e nem atrapalhar as relações comerciais, e tampouco a nossa relação com o Sindicato e os trabalhadores de Camaçari. Não me sinto no direito de atrapalhar mais de 10 mil trabalhadores de lá. Então, não estamos trabalhando com a perspectiva de atrapalhar as operações de Camaçari. Mas o fato é que o negócio de Camaçari existe por força de lei. É o incentivo fiscal que está mantendo a fábrica de Camaçari. Nós temos que alertar o sindicato de lá e os próprios trabalhadores que a Ford tem que “desmamar” desse regime. Ela não pode ficar a vida inteira dependendo do incentivo fiscal. Camaçari só existe em regime especial. Isto nós temos que dizer aos nossos colegas na Bahia.

Entrevistadores: O caminho é discutir dentro do Programa Rota 2030. A questão que você coloca é: como os incentivos que beneficiam determinadas regiões novas não podem prejudicar regiões tradicionais?

Rafael Marques: Sim, é preciso, no Rota 2030, “calibrar” melhor os incentivos. O debate agora é de carro elétrico, mobilidade, novas tecnologias, novos materiais, mas o Sindicato dos Metalúrgicos foi excluído. Hoje a entidade que está lá, em nome dos trabalhadores, é a UGT. Então, nós precisamos reconstruir as relações, porque quem tem as propostas somos nós do ABC. Nas últimas décadas, o sindicato foi um dos protagonistas e agora a gente é excluído de um debate importante. Então, é preciso colocar esses elementos. É preciso ter história, pé no chão de fábrica, para alcançar o melhor resultado destas negociações.

Entrevistadores: No caso específico da Ford, há algum acordo marco internacional assinado? Se não há, a empresa certamente tem um programa de responsabilidade social. Há algum caminho por aí, visando mostrar a contradição da empresa?

Rafael Marques: Sabemos que os programas de responsabilidade social e os acordos marco global somente funcionam em épocas fora de crise. Quando a crise ocorre, tal qual esta pela qual estamos passando, de transição entre o convencional e o novo, aí, neste momento, a financeirização e o mercado dominam. São os acionistas que ditam as regras. Esses conceitos todos são importantes, são valiosos, não dá para desmerecer. Em vários momentos, é este tipo de programa e acordo que buscamos acionar. Na Rússia, foram vários os problemas enfrentados pelo movimento sindical russo na Ford. Estes instrumentos nos ajudaram a levar os problemas que estão acontecendo na Rússia para o conhecimento do board de avaliação da empresa nos Estados Unidos. Há um comitê internacional que se reúne periodicamente. A direção da empresa vai e faz uma fala, apresenta seus principais quadros, a situação da empresa etc. O conselho ouve também o movimento sindical. Então, isso é importante. Não dá para negar. Isto, entretanto, não inibe as decisões da empresa. Esta coloca essa visão em xeque, quando é necessário. Neste momento, a direção da empresa está convicta de que é necessário o fechamento de fábricas. Aí eles começam a fazer as ações independentemente de que país se está tratando, se existe ou não relação sindical naquele país. Mesmo o Estado brasileiro dando um volume elevado de incentivos, a empresa passa por cima disso e executa a decisão, considerando que depois, com o tempo, as relações voltam ao normal. Quando nós dissemos à direção que a decisão do fechamento teria um grande impacto sobre a marca, eles disseram: sim, nós sabemos, mas daqui a um tempo a gente lança um produto vencedor e recuperamos a marca. Essa é a visão deles: daqui a pouco haverá um produto bom, o Brasil gosta e a gente se recupera.

Entrevistadores: Diante da irredutibilidade da Ford em reverter sua decisão de fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo, qual a estratégia para manter a atividade industrial na planta? Há alguma possibilidade dos próprios trabalhadores assumirem a gestão por meio de uma Cooperativa de Produção?
Rafael Marques: Discussão de maneira organizada, não há. Existe, sim, muita conversa entre os trabalhadores da fábrica. O Sindicato já tem conhecimento, know-how, de como mobilizar os empregados para montar uma cooperativa. Tem capacidade e liderança para isso. Todos os empregados confiam no sindicato. Boa parte, inclusive da área técnica, teriam a capacidade para este tipo de via. Entretanto, como falei para vocês, o pressuposto da Ford, para fazer uma negociação com os eventuais interessados, é capital, capacidade técnica e industrialização. O Sindicato teria a industrialização, a capacidade técnica de pessoas. Entretanto, se trata mais do que isso. Este é um setor muito complexo. Nós teríamos que mobilizar uma rede de distribuidores e de fornecedores para ter uma participação diferenciada num modelo dessa natureza. (...) Eu acredito que tem fornecedores que não fariam um desconto significativo para não ser associado como um elemento de interferência na concorrência entre montadoras, e assim não perder clientes. Conversei pessoalmente com um ou outro dirigente de empresa e percebi que haveria muita dificuldade para este caminho. Deram-me inclusive o exemplo da Cosmo. Quando da crise da Chrysler, a Cosmo pensou em assumir alguma unidade da Chrysler, não todas as fábricas. A Cosmo percebeu que não teria capital e que ela perderia clientes. Então tem um jogo, uma forte pressão nesse sistema. Teria que haver um esforço do Estado Nacional muito grande para dar certo. E isto exige uma visão do Estado que não predomina no Brasil hoje. Isto porque seria necessário um forte apoio do BNDES, o apoio de universidades. Uma mobilização do Estado como aconteceu com a Embraer na década de 1960. Uma mobilização muito forte para poder encorajar a parte privada do negócio. Isto não é algo tão fácil. Em suma, teria que ter um arranjo político institucional, algo muito distante da realidade do Brasil de hoje.

Entrevistadores: A visão que se tem em relação ao automóvel mudou em alguma medida neste início de século XXI. Os aplicativos de compartilhamento e de mobilidade, as preocupações ambientais, o excesso de frota em circulação e as dificuldades de estacionamento, entre outras, parece tirar gradativamente do automóvel o símbolo do sonho e do objeto de desejo dos consumidores. A seu ver, que papel estará reservado para a indústria automobilística nas próximas décadas?
Rafael Marques: A indústria automobilística tem que se reinventar para continuar no centro da estrutura industrial. Veja-se, por exemplo, que o atual Diretor de Finanças da Ford, Robbie Shell, deixou a Direção e quem o substituiu foi um ex-executivo da Amazon. A Ford está buscando quadros dessas novas empresas digitais. São essas empresas que estão, de fato, definindo as tendências. Há uma disputa acirrada entre as grandes corporações, com vista a permanecer “no jogo”. Hoje a Starbucks vale 5 vezes mais que a Ford. Mundialmente falando, a Ford vale 36 bilhões de dólares. A Starbucks vale 150 bilhões de dólares. É uma diferença absurda, mas este é um dado da realidade. A Amazon vale 800 bilhões de dólares! Neste contexto, existe um movimento muito forte da Ford no sentido de uma cooperação com a Volks. Ainda temos pouca informação a respeito. A empresa está mantendo um elevado sigilo sobre este movimento. Só abriram aquilo que já é líquido e certo, tal como o acordo de cooperação com a Ranger da Argentina. Mas a tendência aponta para uma parceria estratégica entre dois grandes gigantes para se sustentar em relação aos novos “ventos” que já chegam no mercado. Com efeito, quem serão os compradores de carro? É o UBER? São os aplicativos? As pessoas continuarão sendo proprietárias de carro? Eu acho até que sim, mas, diante do que é hoje, muita coisa vai mudar. Assim, há um movimento privado muito forte, não é um movimento de Estado. A guerra comercial com a China, promovida por Trump, piorou muito os negócios da Ford, tanto na China quanto nos EUA. No Brasil, debate-se muito pouco sobre tudo isso, isto é, como será a indústria brasileira do futuro. A Alemanha e a França estão montando uma cooperação entre os dois países e, nesta cooperação, estão estruturando um fundo para não desnacionalizar as suas empresas. Esse é o caminho. Não é só o setor privado que tem que se juntar para enfrentar tudo que vai acontecer de mudança tecnológica, de mudança no perfil de consumidor, de transformações nos produtos. Os Estados Nacionais têm que tomar medidas para preservar o que ao longo de mais um século foi construído. Isto porque a economia digital americana somando ao “apetite” da China são dois fatores importantes que alteram as regras do jogo. As nações têm que tomar medidas tal qual a Alemanha e a França estão fazendo. Já mencionei também o que aconteceu com uma planta da Ford na França, que não foi fechada em função da forte intervenção do Estado. A Ford teve que achar um interessado e manter a atividade industrial naquela planta, naquele local.

Entrevistadores: O IBGE acaba de divulgar que a participação da indústria de transformação no PIB atingiu o menor nível em 18 anos: 17,4% em 2005 contra 11,3% em 2018. Visto a partir de uma perspectiva nacional, quais, a seu ver: a) as causas desta queda vertiginosa de participação da indústria; b) as soluções (isto é, ações, medidas e políticas) necessárias.
Rafael Marques: Os fatores macroeconômicos foram importantes neste processo. A economia brasileira nas últimas décadas passou a operarem um sistema livre de proteção. Outro elemento é o fator China. A China atraiu muito empresário para comprar itens produzidos naquele país. Eles exportam muitos manufaturados para o Brasil. Além disso, o câmbio para a indústria brasileira não foi nada amigável. O câmbio facilitou que se comprassem produtos manufaturados de todo o mundo. Isto contribuiu para gerar falta de competitividade na indústria brasileira. A carga tributária sobre a indústria também é muito alta. Ela também não é muito amigável. Ela é amigável para alguns setores, para os serviços, por exemplo. Mas para a indústria a carga tributária é cheia. Estes fatores que mencionei, é verdade, sempre existiram. Entretanto, o mundo evoluiu. A competitividade no mundo aumentou. A tecnologia evoluiu intensamente. O Brasil, no entanto, foi ficando para trás. Nos anos de 1980, nós tínhamos um sistema de indústria compatível com o padrão mundial. Havia o gap industrial entre países avançados e países periféricos, mas não era um gap assim tão impactante. Então, parte dessa crise atual concentra-se na indústria, especialmente a indústria paulista. Parte dessa crise repousa na indústria de São Paulo. A outra parte é a financeirização da economia, na qual muitos empresários industriais viraram rentistas.
Neste ambiente, o empresário é rico e a empresa é pobre. Então, há também a questão da mentalidade empresarial brasileira. O setor industrial sofreu grande movimento nos últimos. No início da década de 1990, no Governo Collor, houve grande desnacionalização da indústria brasileira. Isto também aconteceu com a cadeia fornecedora da indústria automobilística. Houve ganhos elevados, até gigantescos da indústria no passado. Então o empresário, ao reinvestir na sua empresa, alcançava seis, sete por cento de taxa de retorno.  Se ele coloca esse dinheiro no mercado financeiro, vai ter as vezes 20% ao ano de rentabilidade, mais do que isso as vezes. Depende do período. Logo, isso nos levou a uma situação de perda de “apetite” do empresário industrial. O deslocamento dos recursos para o mercado financeiro brasileiro também foi muito importante, especialmente aqui na indústria paulista. Tome-se o caso da Proema, empresa do setor de autopeças. A Proema foi um dos poucos sistemistas brasileiros que ainda sobreviviam em 2013. Mas ela tinha milhões, centenas de milhões aplicados fora do Brasil. Enquanto a gente tinha que discutir alternativas para a empresa não fechar, o proprietário estava milionário. A Proema, infelizmente, não é a exceção.

Entrevistadores: E quais os caminhos de solução?

Rafael Marques: Quando o Governo Federal, nos primeiros anos da década de 2010, começou aquela pressão para se reduzir a taxa de juros, o governo deu um sinal positivo para o país. Se você chegar num banco com 100 mil reais para aplicar, ele vai te dar uma rentabilidade. Se você chegar com 10 milhões, ele vai te dar o limite do banco. É preciso enxugar o sistema financeiro, fazer o sistema financeiro se voltar para o empréstimo produtivo, ao empréstimo de negócios. Há que se reestruturar o sistema financeiro nacional para que ele volte a ter a funcionalidade que já chegou a ter no passado. Bancos voltados à atividade produtiva que gera empregos e negócios. Os bancos não podem se voltar apenas à especulação que marcou os últimos 30 anos. Cria-se uma mentalidade doentia. Quem tem dinheiro acaba se tornando um especulador. É fundamental mudar isto, porque se o empresário quer trabalhar e ganhar dinheiro, ótimo. Agora, se a mentalidade é contratar uma consultoria financeira e com o dinheiro ir para Miami... Temos que aprofundar o tema da nova indústria, das tecnologias, realizar um hub muito forte, um movimento para a inovação. O Brasil ainda tem muitos industriais sérios e que sabem que, por exemplo, um produto como um celular não dura muito tempo. Então, para um empresário fazer celular no Brasil, é necessário que tudo esteja à disposição aqui ou nunca vai fazer. Um celular dura três anos, dois anos.  Então, quando se define um projeto e não se tem material aqui, e se passa a produzir o material, outros já apareceram. Com o carro vai ser a mesma coisa. Com a televisão, também. Tudo está mudando muito rápido. Então é preciso se ter a capacidade técnica aqui para não ficarmos defasados em relação às outras indústrias e empresas no mundo. O sistema é esse, de lançamentos contínuos. Um carro antes ficava 20 anos rodando. Hoje é menos de 10, e este número vai cair. Os carros vão baratear, vão ter menos peças. O carro elétrico vai ter menos peças, um carro híbrido um pouco mais. Nós temos que valorizar o etanol. Nós temos que valorizar alguns diferenciais do Brasil. Por exemplo, no caso do carro elétrico, se você considerar toda a cadeia, ele pode ser mais “sujo” que um carro a etanol. Na China, certamente, muito mais sujo, porque lá é a base de termelétrica. Na França, é limpa, porque lá é usina nuclear. Então, se você pegar toda a cadeia, às vezes não vale a pena em termos ambientais. Essa é uma disputa que tem que ser feita. O Brasil tem que participar. Nós temos que achar um nicho, um caminho no qual a gente esteja no jogo.

Entrevistadores: Você apresentou uma visão dos problemas e soluções para a indústria brasileira. Claro que muitos dos caminhos valem para a indústria do Grande ABC. Mas gostaríamos que você tratasse agora da estrutura industrial do Grande ABC.

Rafael Marques: Nós padecemos por estar em uma área metropolitana, uma das mais adensadas do mundo, com alta valorização imobiliária. Temos um sistema de logística que, a despeito de todo o empenho e do volume de investimentos realizado com o rodoanel e outras vias, ainda é um sistema que perde, quando comparado com outras regiões potenciais do Brasil. Observando-se outros países, como o caso da Alemanha, o trem chega direto no pátio da fábrica, trazendo as peças. Isto tem relevância enorme do ponto de vista da competitividade. Isto é algo que o Grande ABC não terá no curto, no médio e mesmo no longo prazo. Veja-se o caso de Santo André, que, entre o final do século XIX e primeira metade do século XX, chegou a ter a ferrovia para atender ao café e as primeiras indústrias. Entretanto, o sistema ferroviário foi todo desestruturado. Hoje, nós dependemos de rodovia. Logística é fundamental para as operações industriais e, no Grande ABC, tornou-se fator de estrangulamento. O tempo todo tem que se reinventar e achar soluções para este problema. Eu acredito que o Grande ABC tem que focar na tecnologia. Temos recursos humanos qualificados, uma rede de universidades. A região tem que atrair para cá o que tem de mais moderno. E a atividade deve ter uma taxa de retorno mais elevada. A Toyota está fazendo a reconversão de sua fábrica em São Bernardo, para um centro de desenvolvimento. Quase todo o desenvolvimento que é feito no Brasil vem para cá hoje. Nós, em nossa relação com a Ford, tentamos isso com a direção global. O Brasil é um pólo não só da América do Sul, mas do hemisfério sul. Desta maneira, nós poderíamos transformar a fábrica de São Bernardo numa fábrica de desenvolvimento. Sendo um país pólo, o Brasil poderia trazer as novas áreas de desenvolvimento, as novas técnicas, iniciar um processo que a Toyota tem gradativamente feito. Nós levamos isso para eles como uma possibilidade. Mas eles não avaliaram essa hipótese. Nosso problema também é que não há política pública neste sentido. É necessário que o governo de São Paulo adote uma postura mais ativa de apoio e fortalecimento da sua estrutura industrial, e de explorar melhor seus diferenciais competitivos, como a área do conhecimento. É necessário que seja constituído e integrado uma espécie de rota paulista de tecnologia conectado à indústria, e criar os mecanismos. Isto ajudaria inclusive a Região do Grande ABC.

Entrevistadores: quem participaria desta discussão, o governo, as associações empresariais, as universidades, os centros tecnológicos, os laboratórios, o Instituto TID-BRASIL, os sindicatos e outros?

Rafael Marques: Evidentemente que participaríamos. Estivemos recentemente em diálogo no Sindipeças. A conversa foi um pouco em torno disso: o que fazer no Estado de São Paulo e no Brasil, para criarmos uma nova onda de expansão industrial. Olhando em retrospectiva, sabemos o quanto foi necessário elevar as barreiras para proteger a montagem da indústria no Brasil, mas temos que reconhecer que elas foram excessivas e por um tempo muito longo. Isto justifica parte do atraso de nossas indústrias em termos de técnicas, no que tange ao desenvolvimento. Precisamos chegar a um consenso mínimo quanto ao diagnóstico, para, daqui para frente, dar às empresas uma capacidade de desenvolvimento que elas nunca tiveram em São Paulo. Isto, reafirmo, ajudará em muito a Região do Grande ABC, que ainda sedia montadoras importantes, mesmo com toda essa discussão em torno da Ford. E, se há interessados pela manutenção da atividade industrial na fábrica da Ford, este é um mérito da região e da própria fábrica. O parque industrial da Ford em São Bernardo, do ponto de vista técnico, é relevante. Em suma, o Grande ABC tem que “correr”. O Estado de São Paulo tem que “correr”. Os municípios do Grande ABC têm que “correr”. A cada ano que passa fica mais difícil reverter o gap de competitividade.

Entrevistadores: Como você vê as ações e os programas para implementar a chamada “Indústria 4.0” ou “Manufatura Avançada” no Brasil e no Grande ABC Paulista? Será uma saída para a indústria brasileira ou mais uma crise anunciada?
Rafael: Eu acho que a indústria 4.0 é, ao mesmo tempo, uma solução e uma crise anunciada, se não tomarmos medidas corretas. Se tomarmos as medidas certas, nós vamos ter a indústria preservada. Isto não quer dizer que vamos ter os mesmos empregos. Vamos ter menos empregos. Mas, existindo um pólo 4.0 no Brasil, você herda a partir daí uma coisa boa da Indústria 4.0. Do jeito que está hoje, nós vamos ter os impactos negativos nos empregos e não vamos ter a parte positiva da Indústria 4.0. Os impactos positivos vão se concentrar fora do país. E a Indústria 4.0 pode ter rebatimento na gestão pública, nas cidades, nos serviços. Se o país crescer em taxas significativas, inserido em uma trajetória tecnológica, teremos um cenário de preservação da indústria com atualização e competitividade. Teremos uma mudança muito forte e redução de emprego. Por outro lado, nascerão oportunidades em outros campos. Se não estivermos neste debate, nós vamos só importar produções externas. E excluídos completamente do jogo.

Entrevistadores: O chamado “modelo tríplice hélice” - que, nos países avançados, aproxima o setor produtivo, as universidades e a gestão pública em torno de projetos estratégicos, desde o seu nascedouro na forma de pesquisa básica e aplicada até a fase do negócio comercial em si – é considerado como fator de promoção de desenvolvimento e competitividade. Como você vê este tipo de caminho para a indústria brasileira? Que ações seriam prioritárias para implantar e aprofundar este caminho?
Rafael Marques: É preciso criar uma cultura para gerar este modelo. O Brasil vive uma crise política muito grande. É inexplicável a desagregação política no Brasil. Hoje, por exemplo, estamos muito longe de modelo tríplice hélice no Brasil, que funcione para valer. Temos um país com muita dificuldade de exercer o diálogo entre instâncias de poder, uma crise das instituições. Isto se reflete inclusive em setores empresariais importantes. Os atores e instituições não estão muito dispostos a debater, a ver a realidade de uma maneira um pouco mais abrangente. Quem está conseguindo manter isso, por exemplo, a Alemanha, passou pela crise ancorada na busca do entendimento. Aqui, no Brasil, no período recente, vivemos, infelizmente, o conflito como prioridade. O conflito pelo conflito. E pelo conflito não vai se chegar a lugar nenhum. O modelo tríplice hélice é algo que precisa entrar pouco a pouco na cultura dos atores e instituições. Os partidos políticos inclusive poderiam também ganhar pouco a pouco esta cultura, para poderem contribuir também com esse debate. Temos partidos fracos no Brasil, embora o Congresso Nacional seja forte. Precisamos começar a trabalhar esse tema publicamente, inclusive nas instituições políticas. Isto é necessário, porque o Brasil não vai dar certo com esse nível de confronto tão elevado entre esquerda e direita. Há um desaparecimento do centro político. Portanto, a conclusão é de que este modelo é sim bastante importante, mas ele terá que entrar pouco a pouco na cultura das instituições. Hoje, mesmo as universidades estão pouco preparadas para isso. Lideram projetos relevantes, mas são projetos individuais, não inseridos em um projeto de desenvolvimento nacional e regional mais amplo. São projetos “soltos”. O mesmo acontece com o empresariado que desacreditou no país, mas que, de alguma maneira, continua ganhando dinheiro. O poder público está em crise. Então é preciso restaurar isso. É fundamental uma interlocução. Acho que tem como a gente colocar isso como prioridade. Entretanto, tenhamos claro que este tema não é algo que está hoje na mesa de nenhuma das esferas que a gente convive.

Entrevistadores: Para finalizarmos. São grandes as transformações econômicas e sociais no mundo contemporâneo. A indústria e os serviços se mesclam. A manufatura é fortemente impactada pelas novas tecnologias digitais. A organização empresarial em rede é uma realidade, de maneira cada vez mais global. Mobilizações e desmobilizações do capital em sua forma física (fábricas, equipamentos, pessoal) são cada vez mais rápidas e frequentes. A flexibilidade é a palavra de ordem do capital. Assim, qual o impacto tal cenário traz em termos de mudança na estrutura e ação sindical?
Rafael Marques: É preciso adotar medidas que dialoguem com este cenário. Se formos “brigar” contra estas tendências, ficaremos totalmente defasados. Estamos diante de novos pressupostos. Estes pressupostos não vão se alterar. Trata-se de uma revolução no modo de produzir produtos e serviços. Por conseguinte, os sindicatos também têm que relacionar em rede. É essencial uma estrutura cada vez mais internacional, relações internacionais e nacionais mais fortes. As entidades estão hoje implantadas e organizadas em base territorial. Isto não serve mais. É preciso avançar para a fusão de sindicatos. É importante sindicatos cada vez mais “gerais”, capazes de lidar com temas amplos e complexos. Por exemplo, é preciso organizar um sindicado nacional da indústria. O problema do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo rebate no setor plástico, no setor químico, no setor financeiro. Mas, hoje, os sindicatos não se sentem ameaçados. É como se dissessem: “nós, que não somos metalúrgicos e não estamos no Grande ABC, não temos nada a ver com isso”. Ou “nós não temos o que fazer sobre isso”. É lógico que eles têm o que fazer, mas do jeito que está hoje, é impossível perceber. Portanto, é essencial a reconstrução dos sindicatos no sentido de sindicatos mais gerais. Isto para ter a capacidade de lidar com os temas que estão surgindo, estarmos preparados para essas novas tendências. A gente tem aquela nossa máxima: sua organização é o local de trabalho. Isto vai continuar valendo, mas de uma maneira muito mais flexível. Na Ford mesmo, tem uma parte do pessoal que hoje está trabalhando mais em casa. Está trabalhando. Não sei se este modelo é bom ou ruim, mas é o modelo que já existe e vai crescer. Não podemos estar engessados em modelos historicamente consagrados. Precisamos ter a capacidade de, na mesma capacidade da manufatura e dos negócios, transformar os sindicatos. Vai ter que ocorrer mais cooperação entre as entidades. Do jeito que está hoje está muito bom para as empresas. É muito bom para a Ford. Somente ter os metalúrgicos do ABC na luta pela preservação da planta em São Bernardo do Campo e não os demais metalúrgicos, os químicos, os plásticos, os bancários do Brasil. Não devia ser assim, mas é como hoje se apresenta.

Entrevistadores

Jefferson José da Conceição. Coordenador do Observatório CONJUSCS. Graduado em Economia pela UFRJ; Mestre em Administração pelo IMES; Doutor em Sociologia pela USP. Assessor da Pró-Reitoria de Graduação e Prof. da USCS. Prof. Colaborador do Mestrado em Economia da UFABC. Secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo (2009-2015). Superintendente do SBCPrev (2015-2016). Diretor da Agência São Paulo de Desenvolvimento (2016). Técnico licenciado do Dieese. Blog: www.blogdojeff.com.br. Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/2840533692107428
Gisele Yamauchi. Economista formada pela USCS. Turismóloga pela Universidade São Judas Tadeu. MBA Empresarial e Industrial pela USCS. Mestranda. Foi bolsista pelo Governo Japonês em Programa de extensão da Japan International Cooperation Agency (JICA), no curso de Kaizen e 5S´s. Pesquisadora do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS - CONJUSCS.


quinta-feira, 25 de abril de 2019

7ª CARTA DE CONJUNTURA DA USCS



Em 24 de abril de 2019, foi lançada a 7ª Carta de Conjuntura da USCS. 

São 26 notas técnicas tratando de diferentes temas relacionados ao Grande ABC, Região Metropolitana de SP e Brasil, tais como: negociações sobre o fechamento da Ford; uma nova era da manufatura; áreas contaminadas no Estado de São Paulo; mobilidade; banda larga fixa; economia criativa; Fablab Jr; Top of Mind ABC; Feminicídio; Intoxicação alimentar em fast food; epidemia de dengue; mortes no trânsito; governo em tempos de internet; maus tratos contra crianças; aeroporto no ABC.
A íntegra da Carta pode ser obtida acessando: https://uscs.edu.br/boletim/?idf=5529