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quarta-feira, 1 de maio de 2019

OS DESAFIOS DO FUTURO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA E AS NEGOCIAÇÕES PELA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE INDUSTRIAL NA FÁBRICA DA FORD EM SBC NA VISÃO DE UM DOS SEUS NEGOCIADORES – ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DO INSTITUTO TID-BRASIL, RAFAEL MARQUES


Neste 1º de maio, Dia do Trabalho, reproduzimos a seguir a entrevista que eu e a pesquisadora Gisele Yamauchi fizemos com o Presidente do Instituto Trabalho, Desenvolvimento e Indústria - TID Brasil, Rafael Marques, e que foi por nós publicada, na forma de nota técnica, na 7ª Carta de Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul). A entrevista trata dos desafios do futuro da indústria brasileira, dos impactos da decisão do fechamento das operações industriais da Ford no Grande ABC e das negociações pela manutenção da atividade industrial na planta. Vale a pena ler a entrevista dada a qualidade e a profundidade das respostas. Confira


Nota técnica

OS DESAFIOS DO FUTURO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA E AS NEGOCIAÇÕES PELA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE INDUSTRIAL NA FÁBRICA DA FORD EM SBC NA VISÃO DE UM DOS SEUS NEGOCIADORES – ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DO INSTITUTO TID-BRASIL, RAFAEL MARQUES
Jefferson José da Conceição
Gisele Yamauchi

Rafael Marques, o nosso entrevistado, é uma das lideranças que está à frente das negociações para a continuidade da atividade industrial da planta da Ford em São Bernardo do Campo, após o bombástico anúncio pela empresa, em fevereiro de 2019, de encerrar suas operações no Grande ABC. Como se verá nesta entrevista, esta decisão tem enorme impacto na economia do Grande ABC, do Estado de São Paulo e do País. Rafael esteve na sede da Ford, em Dearborn, EUA, juntamente com outras lideranças sindicais, no início de março deste ano, para dialogar com a empresa, buscar reverter a decisão do fechamento ou encontrar soluções alternativas. Isto, por si só, já justificaria a entrevista, que realizamos em 25/3/2019. Rafael Marques tem forte inserção regional. Foi também Presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC nos anos de 2013 e 2014.
Mas nosso entrevistado representa mais do que o líder sindical da Ford que busca defender os empregos na planta fabril e na região do ABC. Ele é uma espécie de figura ponte entre o passado e o futuro da indústria brasileira. Não seria exagerado dizer que lideranças como ele - no empresariado, no meio acadêmico e nas gestões públicas-, se inseridas em conjunto em projetos de envergadura nacional e internacional, podem representar o caminho para a reconstrução da indústria do país em novas bases, mais integrada internacionalmente, atualizada em termos tecnológicos, competitiva e avançada nas relações entre os vários elos que compõem a cadeia produtiva.
Rafael Marques, hoje com 54 anos, carrega uma trajetória fortemente inserida na tradicional e simbólica indústria do Grande ABC. É trabalhador da indústria automobilística. Tornou-se uma das lideranças sindicais da região com larga representatividade e atuação nacional. É metalúrgico na Ford desde 1986, onde ingressou como eletricista de manutenção. Antes, já havia trabalhado em empresas como Villares e GROB. Foi representante da CIPA (1991), Coordenador da Comissão de Fábrica (1998-2005) e do Comitê Sindical da Empresa (2008). No Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, migrou por cargos de direção entre 2008 e 2011 até tornar-se presidente em 2012, cargo que ocupou até julho 2017.
A constituição do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID-BRASIL) em outubro de 2017 representa um marco importante nesta trajetória. A pauta do Instituto é o futuro da indústria no Brasil. Isto remete necessariamente ao aprofundamento de temas como participação do país nas cadeias de valor global, novas tecnologias, arranjos produtivos, Indústria 4.0, novas formas de organização social. Como se verá nesta entrevista, Rafael Marques, com brilhantismo, indica as pontes a serem trilhadas para a conexão entre o passado e o futuro da Indústria.
Entrevistadores: A Ford anunciou em fevereiro de 2019 a decisão de fechar a sua fábrica em São Bernardo do Campo. Você e os representantes sindicais do ABC foram pegos de surpresa com esta decisão?
Rafael Marques: Uma de nossas preocupações era a produção de carros, os problemas com relação ao New Fiesta (carro produzido pela Ford em São Bernardo) e à planta fabril. Estávamos voltados para o problema da produção, especialmente de automóveis, já que o New Fiesta vem perdendo o mercado de maneira muito forte. Nos últimos anos, o preço do carro ficou muito elevado. É baixa a produção de peças deste veículo aqui no Brasil. Isto acentuou a crise, dado o patamar em que chegou o câmbio no país. Os custos do carro “explodiram”.

Entrevistadores: Você quer dizer que este carro da Ford foi projetado para uma determinada taxa de câmbio, e a elevação do câmbio acima das previsões potencializou os custos do carro.

Rafael Marques: Sim. Quando o carro New Fiesta foi projetado, o câmbio era de 1,7 Reais por Dólar. Quando foi lançado, o câmbio já era de 1,9. Depois, o câmbio bateu em 4,0. E, como eu disse, era baixo o índice de conteúdo local de peças no Brasil, muito baixo. Podemos dizer que não foi um investimento completo. Eles não desenvolveram fornecedores no país. Preferiram desenvolver fornecedores globais. Esta era a ideia de Albert Caspers, chairman da Ford Europa. O Alan Mullaly era o Presidente da Ford na época. A Ford fez investimentos, mas estes estavam inseridos em uma estratégia global. A gente sempre alertou que isso era um risco. Afinal, o Brasil tem as suas peculiaridades. É difícil dimensionar a crise econômica, planejar em detalhes, isto é, de modo preciso, um projeto.

Entrevistadores: Qualquer projeto precisa de um horizonte de planejamento e de uma estabilidade das regras do jogo.

Rafael Marques: Sim, é necessário um horizonte. Então, o New Fiesta perdeu força, por conta de custo e preço.

Entrevistadores: E no caso dos caminhões?

Rafael Marques: A produção de caminhões deve continuar. Vão-se buscar os meios para isto, parcerias, mas a produção de caminhão fica.

Entrevistadores: Qual é o caminhão produzido atualmente aqui na fábrica de São Bernardo do Campo?

Rafael Marques: O F-Series e o cargo. O F-series é inclusive um ícone da Ford. Em 2012, 2013, a empresa o tirou de linha e depois retornou com ele, dois anos depois. Alertamos a empresa que este era o único produto que nos conectava com os Estados Unidos. Eles iriam tirar de linha, um absurdo. Tiraram, mas depois ele voltou. Entretanto, ele não voltou com a mesma força de mercado que tinha antes de parar. Estávamos então concentrados em automóveis, quando veio a informação do fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo. E que iria encerrar toda a atividade, inclusive a produção de caminhões. Eu confesso que ficamos bastante frustrados, preocupados. Chegamos a pensar, se a gente não tinha sido um pouco ingênuo, ou se faltou alguma leitura correta da conjuntura.

Entrevistadores: E a que conclusão vocês chegaram?

Rafael Marques: Conversando com algumas pessoas, por exemplo, o Marcos Oliveira, que presidiu a Ford de 2000 a 2007, e hoje preside o Grupo Lochpe, constatamos que ele também ficou surpreso com a decisão. Isto porque se trata de uma fábrica moderna, uma fábrica estruturada em linha com o que se tem no setor, ligeiramente acima da média em termos de estrutura fabril antiga, de muitos anos. Portanto, o fechamento da fábrica não era o esperado. Uma de nossas preocupações era o novo caminhão, o euro 6, para 2023. Tínhamos em caminhões o alicerce para puxar a negociação dos investimentos em novos projetos de automóveis. Era essa a nossa intenção.

Entrevistadores: As informações são de que, no caso do próprio New Fiesta, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e a Comissão de Fábrica tiveram um papel importante na decisão da empresa em realizar os investimentos.

Rafael Marques: De fato. É nesse período, no qual eu estava na coordenação da Comissão de Fábrica, que iniciamos essa discussão. Em verdade, eram dois projetos. Um deles era o automóvel Ka. Em realidade, a segunda versão do Ka. Neste caso o processo envolveu um arranjo local, com a autorização da engenharia da Ford global para que a engenharia da subsidiária da Ford no Brasil pudesse fazer um carro híbrido. Buscou-se uma fusão do projeto do Fiesta, uma segunda versão do Fiesta. Mas seria a primeira versão feita pela engenharia brasileira; e a segunda, em relação ao mundo. Então, aquele Ka é uma fusão dos dois carros, que deu uma dimensão maior. Esse carro durou um tempo no mercado, uns cinco anos. Vendeu bem. Cumpriu o seu papel. Foi um carro que deu escala, rentabilidade. E era baixo investimento. Com uma fusão de plataformas, um arranjo local de engenharia, o carro ficou bonito. Por conseguinte, isto resolveu um problema nosso naquele período. O segundo projeto dessa pauta do sindicato foi o New Fiesta. Claro que houve um remanejamento no período entre os modelos de São Bernardo e os de Camaçari, na Bahia. O Ka era feito aqui e hoje é feito na Bahia. O Fiesta era feito aqui e foi o primeiro carro da Bahia. Depois a Eco Sport. Então, houve essa mistura de plataformas entre São Bernardo e Camaçari. Esta é justamente uma das críticas que o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC tem feito, especialmente quando se olha para o regime automotivo brasileiro. Esse remanejamento entre as plataformas, envolvendo as duas plantas, deixou a planta de São Bernardo do Campo em condição de desvantagem. Veja-se o caso do New Fiesta. Foi o lançamento do Ka, quase dois anos depois que “canibalizou” parte do mercado. Então, junto ao governo, nós estamos buscando também apontar para esta luta. Queremos mostrar para o governo federal que São Bernardo foi prejudicado dentro do contexto do regime automotivo e do regime do nordeste.

Entrevistadores: O que você diz é que o Regime Automotivo do País tem que estimular o surgimento de novas áreas de produção automotiva, mas apoiar também as áreas tradicionais, como o Grande ABC Paulista. É isto?

Rafael Marques: Não tem sentido a fábrica desfazer da parte de caminhões. A produção de caminhões é rentável. Em quase todos os anos a operação fecha com rentabilidade. Isto somente não acontece nos anos em que o mercado sofre crise, como no momento atual, em que a escala de produção vai lá para baixo. Isto também está acontecendo com a Mercedes-Benz, Scania, Volvo. Todo mundo está em crise. A indústria em geral. Não é só a Ford. Conhecemos praticamente todas as montadoras. Elas sabem que em muitos anos elas vão ganhar, mas, perderão em alguns outros anos.

Entrevistadores: Que fatores foram decisivos, a seu ver, para a Ford ter tomado a decisão do fechamento da fábrica em São Bernardo?
Rafael Marques: Em 2017, a Direção da Ford soltou um posicionamento sobre as operações globais. Ali eles definiram que não teriam mais negócios de caminhões. Entretanto, eles disseram que dariam autonomia para as regiões [Direções Regionais] onde há fábricas que produzem caminhões, como é o caso da América do Sul e da Europa, em particular a Turquia. As regiões teriam autonomia para achar alternativa, mas a direção global não colocaria mais recursos. Esse é um fator importante. Outro fator é a instabilidade econômica no Brasil. Não há como negar o peso disto. A crise do Brasil ocorre desde 2015. Trata-se de uma recessão forte. O mercado de trabalho está depreciado. O País está muito instável. São grandes as disputas institucionais de poder. Isto mexe com as operações industriais, que são muito sensíveis aos elementos macroeconômicos. Uma indústria que produz e vende automóveis é muito sensível. A Ford não diz, porque não quer politizar, mas certamente a crise econômica e a crise política pesam. O projeto do New Fiesta tinha que ter gerado rentabilidade, como qualquer projeto privado. Entretanto, a empresa otimizou muito o custo dos investimentos. Eles definiram a estratégia com base em baixo conteúdo local de produção. Então, é um carro que tinha uma curva dimensionada até 2023. O auge da curva, o topo, seria agora. A partir daí entraria em declínio. Era esse o plano. O New Fiesta era para atingir a maior escala em 2018 e 2019. Depois o declínio. A isto se seguiria um novo investimento. O carro teve um ano e meio de produção e escala interessante e depois ele caiu em queda livre, não fez dinheiro. Então a região não conseguiu manter capital, ficou dependente dos aportes da Direção da Ford mundial. Isso nos prejudicou fortemente. Há também uma crise na Ford. A empresa vive uma crise no mundo, com uma alteração grande do seu comando. Em 2018, houve uma mexida importante na cúpula da empresa. Mark Fields, Diretor Executivo da Ford Motors entre 2012 e 2014, tinha o dimensionamento dessa nova onda da tecnologia, de novos produtos, da fábrica do futuro. Mas ele queria fazer uma transição de longo prazo, que resultasse em menos ruído e menos impacto para a marca e para os trabalhadores. Essa tese foi derrotada pelo conselho e foi colocada uma pessoa nova com menos história na Ford. Essa pessoa nova, portanto, chegaria com mais apetite de fazer as coisas como estão acontecendo agora aqui no Brasil, na França, na Rússia, na Alemanha, entre outras localidades.

Entrevistadores: Que outras fábricas estão sendo fechadas?

Rafael Marques: Na verdade, os casos de fechamento são os do Brasil, Rússia e França. Há também um enxugamento forte na Alemanha e corte na área administrativa de até 27%. Este é o tamanho dos cortes. É o que temos conhecimento até agora. Acho, porém, que vem mais cortes por aí. Penso que eles abriram o primeiro front, mas que vão continuar. Houve uma mudança grande em várias áreas na Ford Europa e Ford North America: finanças, engenharia... Nesse momento, ocorrem novas mudanças. Minha avaliação é que se trata de uma direção questionada no mercado financeiro. O fato é que as ações da Ford estavam num patamar de US$ 18,00 variando em torno disso. Com Mark Fields, entre US$ 12,00 e US$ 13,00. Com a Direção atual, US$ 8,00, variando em torno disso. Acho que é uma direção pressionada pelo mercado por resultados. Nesse contexto de “apetite” por resultados, eles colocaram na mira a planta de caminhões. E o investimento não é tão grande para uma empresa como a Ford. Mas infelizmente eles decidiram se livrar daquilo que não é mais prioridade, embora a planta tenha sido quase sempre rentável e contribuído com um quinhão na remessa que o Brasil regularmente envia para os Estados Unidos. Acho que esses são os fatores mais importantes.

Entrevistadores: No início de março, na sequência do processo de mobilizações e ações, você, o Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, e o Diretor Sindical da Ford, José Quixabeira de Anchieta (o “Paraíba”), estiveram em Dearborn, Michigan, EUA, para discutir com a alta Direção da Ford a decisão de fechamento da fábrica de São Bernardo, visando buscar alternativas para a sua continuidade e modernização. Como foi esta negociação?

Rafael Marques: Não foi propriamente uma “negociação”. Nós solicitamos, sim, uma reunião ao modo de negociação. Fomos com esse espírito. Mas, lá, encontramos um ambiente fechado com pouco espaço para discussão e negociação. Eles nos receberam, prestaram contas. Fizeram questão de isentar os trabalhadores - mensalistas, horistas, terceirizados, a comunidade em geral – das razões que levaram à decisão de fechamento.

Entrevistadores: Quem os recebeu?

Rafael Marques: O presidente de operações de manufatura. Ele tem um cargo abaixo do Jim Hackett, que é o Diretor Executivo da Ford. Especula-se que deverá ser o próximo presidente. Mas, como disse, foi uma reunião que serviu para eles isentarem os trabalhadores e as relações sindicais das razões do fechamento. Eles afirmaram inclusive que as relações sindicais são das melhores que a Ford tem no mundo. Admitiu erros, isto é, erros de comando de quem acompanha o Brasil nos Estados Unidos e de quem dirige as operações aqui. Há, de fato, vários erros que levaram à ruína da estratégia da Ford no Brasil, especialmente aqui nesta planta de São Bernardo. Ele não enumerou precisamente quais esses erros, mas disse que a Ford não tinha alternativa. A decisão do fechamento foi comunicada ao mercado.  Em tempos de hegemonia do mercado e de financeirização da economia, quando você “diz algo para o mercado” – mercado este que está acima da própria comunidade, de conselhos e das relações diversas – está dito. A ânsia de remunerar o capital aberto é grande. É perceptível a pressão que eles estão sofrendo. Admitiram vários erros, como já expus. E estão cometendo mais um, ao decidirem fechar a fábrica de caminhões. A única abertura que eles nos deram residiu na temática de que outra empresa adquira o parque industrial da Ford em São Bernardo. Existem interessados. Eles nos disseram que iríamos receber visitas de outras montadoras na planta de São Bernardo e que o presidente da Ford na América do Sul, Lyle Waters, é o responsável pelas negociações. Então, o tema de uma nova empresa para ser proprietária da planta é a possibilidade que se tem e vamos torcer para que dê certo e que haja, por parte da Ford mundial, a facilitação com o negócio.

Entrevistadores: Mas há algum termo de compromisso com a manutenção do emprego dos trabalhadores?

Rafael Marques: Esta parte, que nos diz respeito diretamente, envolve um diálogo com as empresas interessadas na aquisição da fábrica. Três fatores podem gerar interesse das empresas que se habilitem a adquirir a propriedade da planta: capital necessário, capacidade técnica e interesse de se manter com a fábrica em São Bernardo. Garantidos esses três fatores, assina-se um termo de confidencialidade. A partir daí a Ford começa a abrir os dados da operação. Esses são os primeiros pressupostos. Então, nós imaginamos que, diante desses pressupostos, o Sindicato vai ter que sentar à mesa com a empresa interessada. Esta conversa não vai ser com a Ford. A Ford não vai querer discutir. Claro, a Ford vai nos apresentar a nova empresa, mas ela, Ford, não vai querer tomar assento nas conversações do Sindicato com a empresa interessada. Se evoluírem mesmo as discussões para a venda da fábrica, veremos como o diálogo do Sindicato e da nova empresa vai avançar também. Reafirmo que há interessados, há duas cartas de confidencialidade já assinadas. Assim, o foco da nossa luta é de discutir as condições do encerramento dessa história, do processo da Ford naquela planta fabril; dialogar com a empresa interessada em adquirir a planta, e, quem sabe, mais à frente, entrar na discussão com a esfera pública.

Entrevistadores: Se efetivado o fechamento da fábrica, 4,3 mil trabalhadores diretos e indiretos na planta ficarão sem emprego. Estudo da Subseção Dieese do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC apontam que isto representa anualmente entre salários e benefícios algo como R$ 600 milhões por ano. Estimativas do Observatório Conjuscs, que considerou também a cadeia de fornecedores, calcula que o valor do impacto com remunerações salariais e benefícios sobe para algo entre R$ 1,2 e R$ 1,4 bilhão por ano. Considerando-se o efeito multiplicador em cadeia, pode-se chegar mesmo a algo como R$ 5 bilhões ao ano, que deixarão de circular na economia. Por volta de 100 mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, serão afetadas diretamente. Portanto, será grande o impacto sobre a cidade de São Bernardo, a Região do ABC, o Estado de São Paulo e o Brasil, em termos de empregos, geração de renda e arrecadação. Neste sentido, como você vê o envolvimento do poder público–Prefeitura, Consórcio Intermunicipal, Governo do Estado e Governo Federal – neste processo de enfrentamento do problema e de busca de soluções e alternativas?
Rafael Marques: Ao que parece, a Ford projetou um cenário para o fechamento da fábrica de São Bernardo em que haveria baixa reação das esferas de governo, a partir, sobretudo, do fato de que os atuais governos têm uma visão mais liberal. A empresa deve ter tomado como pressuposto que a reação seria baixa porque estes governos compartilham da visão de que o setor privado tem todo o direito de tomar esta decisão, sem o envolvimento do estado. Claro que, entre as três esferas de governo (União, Estado e Município), a prefeitura é a que mais iria “espernear”. É ela que sentirá diretamente a queda da arrecadação dos impostos. A maioria das pessoas do conjunto de futuros desempregados, fruto do fechamento da fábrica, mora em São Bernardo. Ao longo da sua história no Brasil, a Ford obteve condições especiais para funcionamento, muito relevantes, que geram um grau de comprometimento da empresa com o Brasil. Estas condições especiais estabelecem um compromisso da Ford com o país. Achamos que nem mesmo as estatais tiveram condições tão favoráveis como a Ford teve no Brasil. Os benefícios do regime automotivo para o Norte e Nordeste, os benefícios do BNDES, as isenções do Programa InovarAuto, os acordos das Câmaras Setoriais, os Acordos Emergenciais, o apoio em infraestrutura, entre outros, soma altos valores. A Ford, inclusive, foi uma das mais rápidas em propor e captar estes incentivos. Ela conseguiu participar do regime do nordeste com a aquisição da empresa Troller. A princípio a Troller não era de interesse. A Ford só mantém aquilo “vivo” por conta do regime do nordeste. Foi uma ação rápida. Ninguém havia pensado nisso; a Ford pensou. Portanto, por todos os números que você listou, que seria o resultado do fechamento dessa planta, acrescido do histórico da Ford no Brasil, tudo isto deveria fazer com que as três esferas de governo entrassem com muita força nesta discussão. As empresas são muito sensíveis à pressão política. O Estado brasileiro, em todas as esferas, incluindo o Judiciário e o Parlamento, deveria se envolver com muita energia, com muita força, com vista a fazer valer os interesses nacionais. Se o jogo é para valer, se é de verdade, a empresa percebe. Ela tem quadros experientes, que sabem como é que as coisas funcionam. Eles estão mobilizando a bancada baiana, para não permitir que o regime do nordeste seja alterado. Nós, do TID-BRASIL, também não queremos que o regime do nordeste seja alterado. Não se trata disso. Trata-se de pressionar politicamente a Ford. Fazer semelhante ao que o governo francês fez com uma fábrica de motores que emprega 800 empregados e que tem uma dimensão muito menor que a de São Bernardo do Campo. Entretanto, se não fosse o estado francês há cerca de dez anos, essa planta estaria fechada há mais tempo. Ela se manteve aberta por mais dez anos, porque o estado pressionou. Somente agora, diante dessa nova direção da empresa, é que voltaram a anunciar o fechamento definitivo da unidade. Mas, reafirmo, são 10 anos a mais fruto desta “batalha”. Aqui, no Brasil, no caso específico de São Bernardo do Campo, as implicações são muito maiores. A Ford é muito mais para o Brasil do que a Ford é para a França, em termos econômicos, sociais e tecnológicos. A fábrica de São Bernardo do Campo foi a primeira a lançar o banco de horas, o regime de layoff, a Participação nos Lucros e Resultados. A fábrica de São Bernardo lançou tendências no mercado automotivo, melhorias tecnológicas em motores, o segmento de SUV, o segmento de comerciais leves. A fábrica tem uma relação com o país que deveria promover posições e reações firmes nas pessoas que dirigem o Brasil. Entretanto, infelizmente, isto não tem acontecido com boa parte do estado brasileiro.

Entrevistadores: Supomos que você faça bastante referência ao Governo Federal, mas e quanto ao Estado e Município?

Rafael Marques: Com relação à Prefeitura de São Bernardo e ao Governo do Estado de São Paulo, existe um acordo sendo construído. O Governador aderiu à tese da venda da unidade fabril para outra montadora. A reação poderia ter sido outra, mas ele aderiu à referida tese. É, nesse momento, uma contribuição do Estado de São Paulo. Trata-se de uma venda para outra montadora. Seria para manter a planta como produtora do setor automotivo. Dificilmente haveria uma conversão da empresa para produzir outro tipo de produto. Até dá para fazer, mas é difícil. Eu mesmo cheguei a pensar em produtos na área da defesa e segurança. Isto, se nada der certo. A gente pensou em vários aspectos. O governador aderiu à tese da venda porque não conversou com a gente. Conversou com a empresa. Tinha que ter conversado conosco antes. Mas não dá para negar que é uma tese. Mais ainda: é a tese que está permeando o debate, que nos foi dito pela direção global. Espero que se torne de fato uma alternativa. Por sua vez, a pressão do Prefeito de São Bernardo do Campo é evidentemente muito mais política. Mas ele tem se colocado no debate. Seria um absurdo ele não se colocar, é claro. Então, está ocorrendo um envolvimento dessas duas esferas, Governo do Estado e Município, em nível mais baixo do que deveria, mas está havendo. O que quis enfatizar é que falta ao atual Estado brasileiro a capacidade de mensurar o alcance dessa decisão da Ford e do seu papel para intervir, e até mesmo alterar, no curso da decisão de uma multinacional.

Entrevistadores: Isto poderia ser um sinalizador de como os países em desenvolvimento podem se relacionar com uma multinacional...

Rafael Marques: Exatamente. E o que deixar de ser feito com a Ford pode levar a outras decisões empresariais semelhantes, pois já se sabe que não haverá tanta resistência. Então, tem que ter resistência, inclusive para impedir que outras empresas tomem uma decisão parecida.

Entrevistadores: Lemos na imprensa que as lideranças sindicais dos Metalúrgicos do ABC denunciam que a Ford está utilizando dinheiro público provenientes de programas que objetivam impulsionar a expansão dos investimentos automotivos no país, em especial nas regiões Norte e Nordeste, para alavancar as despesas diversas (inclusive rescisões) que envolvem o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo. Vocês de fato pretendem travar esta luta?

Rafael Marques: Há um debate em relação a este ponto, que precisa ser construído, e mais comentado no campo jurídico. Havendo sucesso nesta questão da aquisição da fábrica por outra empresa, nós precisaremos avaliar. Nós não estamos querendo prejudicar e nem atrapalhar as relações comerciais, e tampouco a nossa relação com o Sindicato e os trabalhadores de Camaçari. Não me sinto no direito de atrapalhar mais de 10 mil trabalhadores de lá. Então, não estamos trabalhando com a perspectiva de atrapalhar as operações de Camaçari. Mas o fato é que o negócio de Camaçari existe por força de lei. É o incentivo fiscal que está mantendo a fábrica de Camaçari. Nós temos que alertar o sindicato de lá e os próprios trabalhadores que a Ford tem que “desmamar” desse regime. Ela não pode ficar a vida inteira dependendo do incentivo fiscal. Camaçari só existe em regime especial. Isto nós temos que dizer aos nossos colegas na Bahia.

Entrevistadores: O caminho é discutir dentro do Programa Rota 2030. A questão que você coloca é: como os incentivos que beneficiam determinadas regiões novas não podem prejudicar regiões tradicionais?

Rafael Marques: Sim, é preciso, no Rota 2030, “calibrar” melhor os incentivos. O debate agora é de carro elétrico, mobilidade, novas tecnologias, novos materiais, mas o Sindicato dos Metalúrgicos foi excluído. Hoje a entidade que está lá, em nome dos trabalhadores, é a UGT. Então, nós precisamos reconstruir as relações, porque quem tem as propostas somos nós do ABC. Nas últimas décadas, o sindicato foi um dos protagonistas e agora a gente é excluído de um debate importante. Então, é preciso colocar esses elementos. É preciso ter história, pé no chão de fábrica, para alcançar o melhor resultado destas negociações.

Entrevistadores: No caso específico da Ford, há algum acordo marco internacional assinado? Se não há, a empresa certamente tem um programa de responsabilidade social. Há algum caminho por aí, visando mostrar a contradição da empresa?

Rafael Marques: Sabemos que os programas de responsabilidade social e os acordos marco global somente funcionam em épocas fora de crise. Quando a crise ocorre, tal qual esta pela qual estamos passando, de transição entre o convencional e o novo, aí, neste momento, a financeirização e o mercado dominam. São os acionistas que ditam as regras. Esses conceitos todos são importantes, são valiosos, não dá para desmerecer. Em vários momentos, é este tipo de programa e acordo que buscamos acionar. Na Rússia, foram vários os problemas enfrentados pelo movimento sindical russo na Ford. Estes instrumentos nos ajudaram a levar os problemas que estão acontecendo na Rússia para o conhecimento do board de avaliação da empresa nos Estados Unidos. Há um comitê internacional que se reúne periodicamente. A direção da empresa vai e faz uma fala, apresenta seus principais quadros, a situação da empresa etc. O conselho ouve também o movimento sindical. Então, isso é importante. Não dá para negar. Isto, entretanto, não inibe as decisões da empresa. Esta coloca essa visão em xeque, quando é necessário. Neste momento, a direção da empresa está convicta de que é necessário o fechamento de fábricas. Aí eles começam a fazer as ações independentemente de que país se está tratando, se existe ou não relação sindical naquele país. Mesmo o Estado brasileiro dando um volume elevado de incentivos, a empresa passa por cima disso e executa a decisão, considerando que depois, com o tempo, as relações voltam ao normal. Quando nós dissemos à direção que a decisão do fechamento teria um grande impacto sobre a marca, eles disseram: sim, nós sabemos, mas daqui a um tempo a gente lança um produto vencedor e recuperamos a marca. Essa é a visão deles: daqui a pouco haverá um produto bom, o Brasil gosta e a gente se recupera.

Entrevistadores: Diante da irredutibilidade da Ford em reverter sua decisão de fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo, qual a estratégia para manter a atividade industrial na planta? Há alguma possibilidade dos próprios trabalhadores assumirem a gestão por meio de uma Cooperativa de Produção?
Rafael Marques: Discussão de maneira organizada, não há. Existe, sim, muita conversa entre os trabalhadores da fábrica. O Sindicato já tem conhecimento, know-how, de como mobilizar os empregados para montar uma cooperativa. Tem capacidade e liderança para isso. Todos os empregados confiam no sindicato. Boa parte, inclusive da área técnica, teriam a capacidade para este tipo de via. Entretanto, como falei para vocês, o pressuposto da Ford, para fazer uma negociação com os eventuais interessados, é capital, capacidade técnica e industrialização. O Sindicato teria a industrialização, a capacidade técnica de pessoas. Entretanto, se trata mais do que isso. Este é um setor muito complexo. Nós teríamos que mobilizar uma rede de distribuidores e de fornecedores para ter uma participação diferenciada num modelo dessa natureza. (...) Eu acredito que tem fornecedores que não fariam um desconto significativo para não ser associado como um elemento de interferência na concorrência entre montadoras, e assim não perder clientes. Conversei pessoalmente com um ou outro dirigente de empresa e percebi que haveria muita dificuldade para este caminho. Deram-me inclusive o exemplo da Cosmo. Quando da crise da Chrysler, a Cosmo pensou em assumir alguma unidade da Chrysler, não todas as fábricas. A Cosmo percebeu que não teria capital e que ela perderia clientes. Então tem um jogo, uma forte pressão nesse sistema. Teria que haver um esforço do Estado Nacional muito grande para dar certo. E isto exige uma visão do Estado que não predomina no Brasil hoje. Isto porque seria necessário um forte apoio do BNDES, o apoio de universidades. Uma mobilização do Estado como aconteceu com a Embraer na década de 1960. Uma mobilização muito forte para poder encorajar a parte privada do negócio. Isto não é algo tão fácil. Em suma, teria que ter um arranjo político institucional, algo muito distante da realidade do Brasil de hoje.

Entrevistadores: A visão que se tem em relação ao automóvel mudou em alguma medida neste início de século XXI. Os aplicativos de compartilhamento e de mobilidade, as preocupações ambientais, o excesso de frota em circulação e as dificuldades de estacionamento, entre outras, parece tirar gradativamente do automóvel o símbolo do sonho e do objeto de desejo dos consumidores. A seu ver, que papel estará reservado para a indústria automobilística nas próximas décadas?
Rafael Marques: A indústria automobilística tem que se reinventar para continuar no centro da estrutura industrial. Veja-se, por exemplo, que o atual Diretor de Finanças da Ford, Robbie Shell, deixou a Direção e quem o substituiu foi um ex-executivo da Amazon. A Ford está buscando quadros dessas novas empresas digitais. São essas empresas que estão, de fato, definindo as tendências. Há uma disputa acirrada entre as grandes corporações, com vista a permanecer “no jogo”. Hoje a Starbucks vale 5 vezes mais que a Ford. Mundialmente falando, a Ford vale 36 bilhões de dólares. A Starbucks vale 150 bilhões de dólares. É uma diferença absurda, mas este é um dado da realidade. A Amazon vale 800 bilhões de dólares! Neste contexto, existe um movimento muito forte da Ford no sentido de uma cooperação com a Volks. Ainda temos pouca informação a respeito. A empresa está mantendo um elevado sigilo sobre este movimento. Só abriram aquilo que já é líquido e certo, tal como o acordo de cooperação com a Ranger da Argentina. Mas a tendência aponta para uma parceria estratégica entre dois grandes gigantes para se sustentar em relação aos novos “ventos” que já chegam no mercado. Com efeito, quem serão os compradores de carro? É o UBER? São os aplicativos? As pessoas continuarão sendo proprietárias de carro? Eu acho até que sim, mas, diante do que é hoje, muita coisa vai mudar. Assim, há um movimento privado muito forte, não é um movimento de Estado. A guerra comercial com a China, promovida por Trump, piorou muito os negócios da Ford, tanto na China quanto nos EUA. No Brasil, debate-se muito pouco sobre tudo isso, isto é, como será a indústria brasileira do futuro. A Alemanha e a França estão montando uma cooperação entre os dois países e, nesta cooperação, estão estruturando um fundo para não desnacionalizar as suas empresas. Esse é o caminho. Não é só o setor privado que tem que se juntar para enfrentar tudo que vai acontecer de mudança tecnológica, de mudança no perfil de consumidor, de transformações nos produtos. Os Estados Nacionais têm que tomar medidas para preservar o que ao longo de mais um século foi construído. Isto porque a economia digital americana somando ao “apetite” da China são dois fatores importantes que alteram as regras do jogo. As nações têm que tomar medidas tal qual a Alemanha e a França estão fazendo. Já mencionei também o que aconteceu com uma planta da Ford na França, que não foi fechada em função da forte intervenção do Estado. A Ford teve que achar um interessado e manter a atividade industrial naquela planta, naquele local.

Entrevistadores: O IBGE acaba de divulgar que a participação da indústria de transformação no PIB atingiu o menor nível em 18 anos: 17,4% em 2005 contra 11,3% em 2018. Visto a partir de uma perspectiva nacional, quais, a seu ver: a) as causas desta queda vertiginosa de participação da indústria; b) as soluções (isto é, ações, medidas e políticas) necessárias.
Rafael Marques: Os fatores macroeconômicos foram importantes neste processo. A economia brasileira nas últimas décadas passou a operarem um sistema livre de proteção. Outro elemento é o fator China. A China atraiu muito empresário para comprar itens produzidos naquele país. Eles exportam muitos manufaturados para o Brasil. Além disso, o câmbio para a indústria brasileira não foi nada amigável. O câmbio facilitou que se comprassem produtos manufaturados de todo o mundo. Isto contribuiu para gerar falta de competitividade na indústria brasileira. A carga tributária sobre a indústria também é muito alta. Ela também não é muito amigável. Ela é amigável para alguns setores, para os serviços, por exemplo. Mas para a indústria a carga tributária é cheia. Estes fatores que mencionei, é verdade, sempre existiram. Entretanto, o mundo evoluiu. A competitividade no mundo aumentou. A tecnologia evoluiu intensamente. O Brasil, no entanto, foi ficando para trás. Nos anos de 1980, nós tínhamos um sistema de indústria compatível com o padrão mundial. Havia o gap industrial entre países avançados e países periféricos, mas não era um gap assim tão impactante. Então, parte dessa crise atual concentra-se na indústria, especialmente a indústria paulista. Parte dessa crise repousa na indústria de São Paulo. A outra parte é a financeirização da economia, na qual muitos empresários industriais viraram rentistas.
Neste ambiente, o empresário é rico e a empresa é pobre. Então, há também a questão da mentalidade empresarial brasileira. O setor industrial sofreu grande movimento nos últimos. No início da década de 1990, no Governo Collor, houve grande desnacionalização da indústria brasileira. Isto também aconteceu com a cadeia fornecedora da indústria automobilística. Houve ganhos elevados, até gigantescos da indústria no passado. Então o empresário, ao reinvestir na sua empresa, alcançava seis, sete por cento de taxa de retorno.  Se ele coloca esse dinheiro no mercado financeiro, vai ter as vezes 20% ao ano de rentabilidade, mais do que isso as vezes. Depende do período. Logo, isso nos levou a uma situação de perda de “apetite” do empresário industrial. O deslocamento dos recursos para o mercado financeiro brasileiro também foi muito importante, especialmente aqui na indústria paulista. Tome-se o caso da Proema, empresa do setor de autopeças. A Proema foi um dos poucos sistemistas brasileiros que ainda sobreviviam em 2013. Mas ela tinha milhões, centenas de milhões aplicados fora do Brasil. Enquanto a gente tinha que discutir alternativas para a empresa não fechar, o proprietário estava milionário. A Proema, infelizmente, não é a exceção.

Entrevistadores: E quais os caminhos de solução?

Rafael Marques: Quando o Governo Federal, nos primeiros anos da década de 2010, começou aquela pressão para se reduzir a taxa de juros, o governo deu um sinal positivo para o país. Se você chegar num banco com 100 mil reais para aplicar, ele vai te dar uma rentabilidade. Se você chegar com 10 milhões, ele vai te dar o limite do banco. É preciso enxugar o sistema financeiro, fazer o sistema financeiro se voltar para o empréstimo produtivo, ao empréstimo de negócios. Há que se reestruturar o sistema financeiro nacional para que ele volte a ter a funcionalidade que já chegou a ter no passado. Bancos voltados à atividade produtiva que gera empregos e negócios. Os bancos não podem se voltar apenas à especulação que marcou os últimos 30 anos. Cria-se uma mentalidade doentia. Quem tem dinheiro acaba se tornando um especulador. É fundamental mudar isto, porque se o empresário quer trabalhar e ganhar dinheiro, ótimo. Agora, se a mentalidade é contratar uma consultoria financeira e com o dinheiro ir para Miami... Temos que aprofundar o tema da nova indústria, das tecnologias, realizar um hub muito forte, um movimento para a inovação. O Brasil ainda tem muitos industriais sérios e que sabem que, por exemplo, um produto como um celular não dura muito tempo. Então, para um empresário fazer celular no Brasil, é necessário que tudo esteja à disposição aqui ou nunca vai fazer. Um celular dura três anos, dois anos.  Então, quando se define um projeto e não se tem material aqui, e se passa a produzir o material, outros já apareceram. Com o carro vai ser a mesma coisa. Com a televisão, também. Tudo está mudando muito rápido. Então é preciso se ter a capacidade técnica aqui para não ficarmos defasados em relação às outras indústrias e empresas no mundo. O sistema é esse, de lançamentos contínuos. Um carro antes ficava 20 anos rodando. Hoje é menos de 10, e este número vai cair. Os carros vão baratear, vão ter menos peças. O carro elétrico vai ter menos peças, um carro híbrido um pouco mais. Nós temos que valorizar o etanol. Nós temos que valorizar alguns diferenciais do Brasil. Por exemplo, no caso do carro elétrico, se você considerar toda a cadeia, ele pode ser mais “sujo” que um carro a etanol. Na China, certamente, muito mais sujo, porque lá é a base de termelétrica. Na França, é limpa, porque lá é usina nuclear. Então, se você pegar toda a cadeia, às vezes não vale a pena em termos ambientais. Essa é uma disputa que tem que ser feita. O Brasil tem que participar. Nós temos que achar um nicho, um caminho no qual a gente esteja no jogo.

Entrevistadores: Você apresentou uma visão dos problemas e soluções para a indústria brasileira. Claro que muitos dos caminhos valem para a indústria do Grande ABC. Mas gostaríamos que você tratasse agora da estrutura industrial do Grande ABC.

Rafael Marques: Nós padecemos por estar em uma área metropolitana, uma das mais adensadas do mundo, com alta valorização imobiliária. Temos um sistema de logística que, a despeito de todo o empenho e do volume de investimentos realizado com o rodoanel e outras vias, ainda é um sistema que perde, quando comparado com outras regiões potenciais do Brasil. Observando-se outros países, como o caso da Alemanha, o trem chega direto no pátio da fábrica, trazendo as peças. Isto tem relevância enorme do ponto de vista da competitividade. Isto é algo que o Grande ABC não terá no curto, no médio e mesmo no longo prazo. Veja-se o caso de Santo André, que, entre o final do século XIX e primeira metade do século XX, chegou a ter a ferrovia para atender ao café e as primeiras indústrias. Entretanto, o sistema ferroviário foi todo desestruturado. Hoje, nós dependemos de rodovia. Logística é fundamental para as operações industriais e, no Grande ABC, tornou-se fator de estrangulamento. O tempo todo tem que se reinventar e achar soluções para este problema. Eu acredito que o Grande ABC tem que focar na tecnologia. Temos recursos humanos qualificados, uma rede de universidades. A região tem que atrair para cá o que tem de mais moderno. E a atividade deve ter uma taxa de retorno mais elevada. A Toyota está fazendo a reconversão de sua fábrica em São Bernardo, para um centro de desenvolvimento. Quase todo o desenvolvimento que é feito no Brasil vem para cá hoje. Nós, em nossa relação com a Ford, tentamos isso com a direção global. O Brasil é um pólo não só da América do Sul, mas do hemisfério sul. Desta maneira, nós poderíamos transformar a fábrica de São Bernardo numa fábrica de desenvolvimento. Sendo um país pólo, o Brasil poderia trazer as novas áreas de desenvolvimento, as novas técnicas, iniciar um processo que a Toyota tem gradativamente feito. Nós levamos isso para eles como uma possibilidade. Mas eles não avaliaram essa hipótese. Nosso problema também é que não há política pública neste sentido. É necessário que o governo de São Paulo adote uma postura mais ativa de apoio e fortalecimento da sua estrutura industrial, e de explorar melhor seus diferenciais competitivos, como a área do conhecimento. É necessário que seja constituído e integrado uma espécie de rota paulista de tecnologia conectado à indústria, e criar os mecanismos. Isto ajudaria inclusive a Região do Grande ABC.

Entrevistadores: quem participaria desta discussão, o governo, as associações empresariais, as universidades, os centros tecnológicos, os laboratórios, o Instituto TID-BRASIL, os sindicatos e outros?

Rafael Marques: Evidentemente que participaríamos. Estivemos recentemente em diálogo no Sindipeças. A conversa foi um pouco em torno disso: o que fazer no Estado de São Paulo e no Brasil, para criarmos uma nova onda de expansão industrial. Olhando em retrospectiva, sabemos o quanto foi necessário elevar as barreiras para proteger a montagem da indústria no Brasil, mas temos que reconhecer que elas foram excessivas e por um tempo muito longo. Isto justifica parte do atraso de nossas indústrias em termos de técnicas, no que tange ao desenvolvimento. Precisamos chegar a um consenso mínimo quanto ao diagnóstico, para, daqui para frente, dar às empresas uma capacidade de desenvolvimento que elas nunca tiveram em São Paulo. Isto, reafirmo, ajudará em muito a Região do Grande ABC, que ainda sedia montadoras importantes, mesmo com toda essa discussão em torno da Ford. E, se há interessados pela manutenção da atividade industrial na fábrica da Ford, este é um mérito da região e da própria fábrica. O parque industrial da Ford em São Bernardo, do ponto de vista técnico, é relevante. Em suma, o Grande ABC tem que “correr”. O Estado de São Paulo tem que “correr”. Os municípios do Grande ABC têm que “correr”. A cada ano que passa fica mais difícil reverter o gap de competitividade.

Entrevistadores: Como você vê as ações e os programas para implementar a chamada “Indústria 4.0” ou “Manufatura Avançada” no Brasil e no Grande ABC Paulista? Será uma saída para a indústria brasileira ou mais uma crise anunciada?
Rafael: Eu acho que a indústria 4.0 é, ao mesmo tempo, uma solução e uma crise anunciada, se não tomarmos medidas corretas. Se tomarmos as medidas certas, nós vamos ter a indústria preservada. Isto não quer dizer que vamos ter os mesmos empregos. Vamos ter menos empregos. Mas, existindo um pólo 4.0 no Brasil, você herda a partir daí uma coisa boa da Indústria 4.0. Do jeito que está hoje, nós vamos ter os impactos negativos nos empregos e não vamos ter a parte positiva da Indústria 4.0. Os impactos positivos vão se concentrar fora do país. E a Indústria 4.0 pode ter rebatimento na gestão pública, nas cidades, nos serviços. Se o país crescer em taxas significativas, inserido em uma trajetória tecnológica, teremos um cenário de preservação da indústria com atualização e competitividade. Teremos uma mudança muito forte e redução de emprego. Por outro lado, nascerão oportunidades em outros campos. Se não estivermos neste debate, nós vamos só importar produções externas. E excluídos completamente do jogo.

Entrevistadores: O chamado “modelo tríplice hélice” - que, nos países avançados, aproxima o setor produtivo, as universidades e a gestão pública em torno de projetos estratégicos, desde o seu nascedouro na forma de pesquisa básica e aplicada até a fase do negócio comercial em si – é considerado como fator de promoção de desenvolvimento e competitividade. Como você vê este tipo de caminho para a indústria brasileira? Que ações seriam prioritárias para implantar e aprofundar este caminho?
Rafael Marques: É preciso criar uma cultura para gerar este modelo. O Brasil vive uma crise política muito grande. É inexplicável a desagregação política no Brasil. Hoje, por exemplo, estamos muito longe de modelo tríplice hélice no Brasil, que funcione para valer. Temos um país com muita dificuldade de exercer o diálogo entre instâncias de poder, uma crise das instituições. Isto se reflete inclusive em setores empresariais importantes. Os atores e instituições não estão muito dispostos a debater, a ver a realidade de uma maneira um pouco mais abrangente. Quem está conseguindo manter isso, por exemplo, a Alemanha, passou pela crise ancorada na busca do entendimento. Aqui, no Brasil, no período recente, vivemos, infelizmente, o conflito como prioridade. O conflito pelo conflito. E pelo conflito não vai se chegar a lugar nenhum. O modelo tríplice hélice é algo que precisa entrar pouco a pouco na cultura dos atores e instituições. Os partidos políticos inclusive poderiam também ganhar pouco a pouco esta cultura, para poderem contribuir também com esse debate. Temos partidos fracos no Brasil, embora o Congresso Nacional seja forte. Precisamos começar a trabalhar esse tema publicamente, inclusive nas instituições políticas. Isto é necessário, porque o Brasil não vai dar certo com esse nível de confronto tão elevado entre esquerda e direita. Há um desaparecimento do centro político. Portanto, a conclusão é de que este modelo é sim bastante importante, mas ele terá que entrar pouco a pouco na cultura das instituições. Hoje, mesmo as universidades estão pouco preparadas para isso. Lideram projetos relevantes, mas são projetos individuais, não inseridos em um projeto de desenvolvimento nacional e regional mais amplo. São projetos “soltos”. O mesmo acontece com o empresariado que desacreditou no país, mas que, de alguma maneira, continua ganhando dinheiro. O poder público está em crise. Então é preciso restaurar isso. É fundamental uma interlocução. Acho que tem como a gente colocar isso como prioridade. Entretanto, tenhamos claro que este tema não é algo que está hoje na mesa de nenhuma das esferas que a gente convive.

Entrevistadores: Para finalizarmos. São grandes as transformações econômicas e sociais no mundo contemporâneo. A indústria e os serviços se mesclam. A manufatura é fortemente impactada pelas novas tecnologias digitais. A organização empresarial em rede é uma realidade, de maneira cada vez mais global. Mobilizações e desmobilizações do capital em sua forma física (fábricas, equipamentos, pessoal) são cada vez mais rápidas e frequentes. A flexibilidade é a palavra de ordem do capital. Assim, qual o impacto tal cenário traz em termos de mudança na estrutura e ação sindical?
Rafael Marques: É preciso adotar medidas que dialoguem com este cenário. Se formos “brigar” contra estas tendências, ficaremos totalmente defasados. Estamos diante de novos pressupostos. Estes pressupostos não vão se alterar. Trata-se de uma revolução no modo de produzir produtos e serviços. Por conseguinte, os sindicatos também têm que relacionar em rede. É essencial uma estrutura cada vez mais internacional, relações internacionais e nacionais mais fortes. As entidades estão hoje implantadas e organizadas em base territorial. Isto não serve mais. É preciso avançar para a fusão de sindicatos. É importante sindicatos cada vez mais “gerais”, capazes de lidar com temas amplos e complexos. Por exemplo, é preciso organizar um sindicado nacional da indústria. O problema do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo do Campo rebate no setor plástico, no setor químico, no setor financeiro. Mas, hoje, os sindicatos não se sentem ameaçados. É como se dissessem: “nós, que não somos metalúrgicos e não estamos no Grande ABC, não temos nada a ver com isso”. Ou “nós não temos o que fazer sobre isso”. É lógico que eles têm o que fazer, mas do jeito que está hoje, é impossível perceber. Portanto, é essencial a reconstrução dos sindicatos no sentido de sindicatos mais gerais. Isto para ter a capacidade de lidar com os temas que estão surgindo, estarmos preparados para essas novas tendências. A gente tem aquela nossa máxima: sua organização é o local de trabalho. Isto vai continuar valendo, mas de uma maneira muito mais flexível. Na Ford mesmo, tem uma parte do pessoal que hoje está trabalhando mais em casa. Está trabalhando. Não sei se este modelo é bom ou ruim, mas é o modelo que já existe e vai crescer. Não podemos estar engessados em modelos historicamente consagrados. Precisamos ter a capacidade de, na mesma capacidade da manufatura e dos negócios, transformar os sindicatos. Vai ter que ocorrer mais cooperação entre as entidades. Do jeito que está hoje está muito bom para as empresas. É muito bom para a Ford. Somente ter os metalúrgicos do ABC na luta pela preservação da planta em São Bernardo do Campo e não os demais metalúrgicos, os químicos, os plásticos, os bancários do Brasil. Não devia ser assim, mas é como hoje se apresenta.

Entrevistadores

Jefferson José da Conceição. Coordenador do Observatório CONJUSCS. Graduado em Economia pela UFRJ; Mestre em Administração pelo IMES; Doutor em Sociologia pela USP. Assessor da Pró-Reitoria de Graduação e Prof. da USCS. Prof. Colaborador do Mestrado em Economia da UFABC. Secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo (2009-2015). Superintendente do SBCPrev (2015-2016). Diretor da Agência São Paulo de Desenvolvimento (2016). Técnico licenciado do Dieese. Blog: www.blogdojeff.com.br. Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/2840533692107428
Gisele Yamauchi. Economista formada pela USCS. Turismóloga pela Universidade São Judas Tadeu. MBA Empresarial e Industrial pela USCS. Mestranda. Foi bolsista pelo Governo Japonês em Programa de extensão da Japan International Cooperation Agency (JICA), no curso de Kaizen e 5S´s. Pesquisadora do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS - CONJUSCS.


quinta-feira, 25 de abril de 2019

7ª CARTA DE CONJUNTURA DA USCS



Em 24 de abril de 2019, foi lançada a 7ª Carta de Conjuntura da USCS. 

São 26 notas técnicas tratando de diferentes temas relacionados ao Grande ABC, Região Metropolitana de SP e Brasil, tais como: negociações sobre o fechamento da Ford; uma nova era da manufatura; áreas contaminadas no Estado de São Paulo; mobilidade; banda larga fixa; economia criativa; Fablab Jr; Top of Mind ABC; Feminicídio; Intoxicação alimentar em fast food; epidemia de dengue; mortes no trânsito; governo em tempos de internet; maus tratos contra crianças; aeroporto no ABC.
A íntegra da Carta pode ser obtida acessando: https://uscs.edu.br/boletim/?idf=5529




sábado, 30 de março de 2019

A MANOBRA DA GM QUE DEU CERTO

Na ISTOÉ Dinheiro desta semana (29/3/2019), matéria "A manobra da GM que deu certo", da jornalista Valéria Bretas, na qual consta a nossa participação em forma de entrevista. Segue o link https://www.istoedinheiro.com.br/a-manobra-da-gm-que-deu-certo/

terça-feira, 5 de março de 2019

6ª CARTA DE CONJUNTURA DA USCS

Em 27 de fevereiro de 2019, foi lançada a 6ª Carta de Conjuntura da USCS. 

São 25 notas técnicas, elaboradas por especialistas, que debatem, de modo objetivo, temáticas contemporâneas do mundo da produção e do trabalho; saúde; educação; cultura; políticas urbanas; tecnologia; empreendedorismo, entre outras. Segue o link aos interessados. Compartilhe.

http://www.uscs.edu.br/boletim/?idf=5480



FORD É A PONTA DO ICEBERG


Três fatos chamam a atenção. O anúncio da Ford de fechamento da planta de São Bernardo; o estudo da GM para encerrar suas operações no Brasil; o cálculo do IBGE de que a participação da indústria no PIB do País atingiu o menor nível em 18 anos: 17,4% em 2005 contra 11,3% em 2018.
Em comum, a crise do setor industrial. No caso da automotiva, há especificidades, como a queda no mercado, os aplicativos e a nova forma de uso dos veículos, a concorrência internacional, os elevados investimentos necessários e a guerra fiscal. Entretanto, o que está mais de fundo é a desindustrialização pela qual passa o País decorrente da financeirização, etapa da hegemonia das finanças.
Em trabalho que publiquei no Observatório da USCS, em parceria com Ricardo Kawai, medimos as receitas, os lucros e as margens de lucro anuais dos setores no Brasil, entre 2000 e 2017, com dados das empresas de capital aberto. Embora as 22 instituições financeiras tenham apresentado receita menor que a das 107 indústrias pesquisadas, aquelas, após 2006, tiveram lucro líquido, ano após ano, bem superior ao das indústrias. Em 2015, a margem de lucro anual das instituições financeiras (76,9%) foi 37 vezes maior que a margem de lucro das indústrias (2,1%).
Em outro, com Gisele Yamauchi, mostramos que, entre 2012 e 2016, a selic foi bem superior à margem de lucro média das indústrias do ABC: em 2012, 8,6% contra 1,9%; 2013, 8,1% contra 2,3%; 2014, 10,8% contra 3,0%; 2015, 13,2% contra -4,6%; 2016, 14% contra -0,4%.
A desindustrialização também se revelou em uma terceira pesquisa, desta vez, com Sandra Gonsales: no período entre 2015 a 2017, a indústria foi o setor que apresentou o maior número de falências no Grande ABC: 57 falências decretadas na indústria, contra 28 no comércio e 26 nos serviços.
A indústria ainda tem papel central no desenvolvimento, como mostram os programas “Indústria 4.0” (Alemanha) e “Manufatura Avançada” (EUA), que objetivam revitalizar a indústria e trazer de volta os empregos perdidos para outros países, especialmente os asiáticos.
Para mitigar a hegemonia das finanças e a desindustrialização, proponho a obrigatoriedade de que as instituições financeiras participem de projetos estratégicos como a indústria 4.0 e o apoio à inovação; o fortalecimento do BNDES; a criação de taxas sobre operações financeiras para ajudar na política industrial, entre outras.
A defesa da manutenção da produção industrial – como é o caso da preservação das operações da fábrica da Ford e da GM no Grande ABC Paulista –e o combate à financeirização descontrolada devem fazer parte do rol de bandeiras mobilizadoras da sociedade brasileira e das regiões industrializadas, como é o caso do ABC.
Jefferson José da Conceição é Prof. Dr. da USCS, Assessor da Pró-Reitoria de Graduação e Coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS. jeffdacsenior@gmail.com
Artigo publicado em 4/3/2019, no Diário do Grande ABC. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

FALÊNCIAS: EUA, BRASIL e GRANDE ABC


autores: Jefferson José da Conceição e Sandra Gonsales

Artigo publicado no Diário do Grande ABC, Coluna ABC da Economia,
25/1/2019.

A atual Lei de Falências e Recuperação Judicial no Brasil, Lei nº 11.101/05, teve como inspiração a Lei norte-americana (Bankruptcy Code), por esta última ser considerada dinâmica, ser mais célere e dar maior proteção aos credores.

Entre os objetivos da lei americana está a superação da crise econômica financeira da empresa, a retomada da atividade e a manutenção de empregos da empresa. Nos EUA, a lei busca fazer com que uma empresa em dificuldades financeiras continue funcionando. A lei viabiliza um tempo razoável para que a empresa chegue a um acordo com seus credores. Entre os casos emblemáticos submetidos a esta lei desde 2009 estão o da GM e da Chrysler, do Lehman Brothers (banco de investimentos), das empresas do setor aéreo United Airlines, US Airways, Delta Airlines e Northwest, da WorldCom (comunicações), da Kmart (distribuição) e da Enron (energia).

Apesar da flexibilidade obtida com a recuperação judicial, ainda é baixa a taxa de sucesso de recuperação das empresas no Brasil. Segundo o Ministério da Fazenda, apenas 1% das empresas consegue sair da recuperação, retomando a regularidade dos negócios, sem passar para o estágio da falência. Em trabalho publicado no Observatório da USCS, pesquisamos 67 empresas do Grande ABC em recuperação judicial no período de 2012 a 2018. Destas, 21 empresas tiveram sua falência decretada e apenas 1 foi recuperada.  Nos EUA, a literatura aponta que 30% das empresas seguem em atividade após a recuperação judicial.

Uma das principais diferenças entre as legislações é a figura do devedor possuidor (“debtor in possession”). No Brasil, o devedor e seus administradores se manterão na administração, juntamente com o administrador judicial nomeado pelo juiz. Nos EUA, o administrador judicial participa na administração somente em caso de fraude.

Nos EUA, o plano de recuperação da empresa deve ser submetido à aprovação do Securities and Exchange Commissions (SEC). No Brasil, a elaboração do plano é feita pela própria empresa, não submetendo ao crivo de nenhum órgão regulador. O prazo para a apresentação do plano de recuperação nos EUA é de 120 dias, o dobro permitido pela lei brasileira, de 60 dias.

O “Cram Down” é outro elemento importante da legislação americana. Por ele, é possível uma decisão da corte de falências sem o consentimento dos credores, com a finalidade de que o plano de recuperação seja justo e igualitário para todos os credores, defendendo os direitos das classes dissidentes. Na crise imobiliária americana de 2008, este dispositivo foi bastante utilizado, o que ajudou a evitar que várias residências pudessem ser tomadas de um grande contingente de pessoas, o que agravaria ainda mais a crise naquele momento.

Uma diferença importante entre as legislações dos EUA e do Brasil repousa na abrangência. A lei dos EUA é mais ampla, servindo para todos os tipos de organizações: empresas, municípios e pessoas físicas. Um caso bastante divulgado foi o pedido de falência de Detroit em 2013. No Brasil, somente as pessoas jurídicas podem requerer a recuperação judicial e falência. Bancos, instituições financeiras, planos de saúde e empresas de seguro não podem requerer a recuperação judicial e falência.

A lei brasileira não permite a inclusão de impostos em atraso no processo de recuperação judicial. Estes somente serão renegociados após a aprovação do processo e início do pagamento dos tributos das operações correntes. Atendidas as condições para o parcelamento, este será efetivado com prazo máximo de 84 meses. O prazo para as empresas que não solicitaram recuperação judicial é de 120 meses, condição mais favorável do que a que se aplica àquela que busca a proteção legal para suportar a recuperação do seu negócio.

O fisco na lei americana participa do plano de recuperação. Todas as execuções fiscais são suspensas, como as outras execuções não fiscais. O fisco financia o devedor como os outros credores, parcelando os débitos fiscais e até concedendo descontos.

Para maior eficácia da lei brasileira sugerimos: submeter o plano de recuperação judicial a um órgão capacitado, que examinaria o plano de recuperação e viabilidade econômico-financeira; a participação do fisco na recuperação judicial e a criação de um fundo específico que atenda a demanda por crédito das empresas em recuperação.

O conteúdo desta coluna foi elaborado pelo Coordenador e pela Pesquisadora do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), Jefferson José da Conceição e Sandra Gonsales.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Salário mínimo vai a R$ 998 neste ano

Matéria publicada pelo Diário do Grande ABC,  em 2/1/2019, que contem entrevista do Coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS. 

2/01/2019 às 07:26
Salário mínimo vai a R$ 998 neste ano 
Soraia Abreu Pedrozo
Do Diário do Grande ABC

Recém-empossado como presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) assinou decreto, na noite de ontem, com o valor do salário mínimo vigente para 2019: R$ 998. Tradicionalmente, o ato ocorria nos últimos dias do ano, porém, o ex-presidente Michel Temer (MDB) deixou a missão para seu sucessor.
Após dois anos com reajuste abaixo da inflação, o piso do mercado de trabalho volta a receber aumento real. A correção de 4,61% no valor do salário mínimo – de R$ 954 para R$ 998, ganho de R$ 44 – supera a estimativa do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) realizada pelo Banco Central, de 3,5%. O percentual exato da inflação de 2018 será divulgada apenas no dia 11.
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Apesar do aumento, a expectativa era a de que o piso fosse a R$ 1.006, e pela primeira vez na história ultrapassasse a casa dos R$ 1.000. O montante havia sido aprovado pelo Congresso Nacional no dia 19 de dezembro, como parte do Orçamento da União para 2019. Dessa forma, o reajuste seria de 5,45% ou R$ 52.
No Orçamento, o governo havia projetado elevação de 4,20% na inflação, mas a variação acumulada em 12 meses até novembro está em 3,56%. Além disso, será adicionado valor residual de R$ 1,75, porque o INPC em 2017 ficou acima do que foi considerado na definição do mínimo de 2018. No ano passado, a correção de 1,81% (R$ 17), o menor percentual de correção em 24 anos, ou seja, desde o início do Plano Real.
A fórmula que atualiza o salário mínimo é composta pelo PIB (Produto Interno Bruto) de dois anos atrás mais a inflação medida pelo INPC. Em 2016, porém, a geração de riquezas apresentou queda de 3,6%, a pior recessão da história. Conforme a regra, quando isso ocorre, o PIB é desconsiderado do cálculo. Neste ano, foi somado o crescimento da economia em 2017, de 1%, com a expectativa da inflação.
IMPACTO - Na avaliação do economista e coordenador do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura) da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Jefferson José da Conceição, embora tenha sido concedido aumento acima da inflação, o fato de Bolsonaro não ter aprovado os R$ 1.006 mostra, já no primeiro dia de mandato, a tônica dos próximos quatro anos de governo: reduzir cada vez mais a intervenção do Estado na Economia. E, dentro desta lógica de reduzir despesas e investimentos públicos, a política de valorização do salário mínimo vai deixando de existir. “Com isso, o piso do mercado de trabalho vai deixando de ser referência aos valores pagos por serviços prestados, e quem irá valorizar ou não o salário será o mercado, pagando o quanto ele acha que vale o trabalho realizado”, avalia. “Ao estabelecermos um valor mínimo menor do que o esperado, temos menor quantidade de dinheiro circulando na economia, o que reduz suas chances de expansão. Esta é a âncora do crescimento.”
Para ele, embora a projeção do PIB deste ano seja de alta de 2,5%, ele não acredita que passe de 1,5%.
O impacto dos R$ 8 que deixam de ser pagos, segundo Conceição, é o achatamento, em vez da valorização, dos vencimentos de categorias que têm como referência o salário mínimo, a exemplo de agricultura, comércio, vigilância e limpeza, entre outros.

Ao menos R$ 2,8 bi deixam de girar na economia
Hoje no Brasil, 27 milhões de aposentados e pensionistas recebem o equivalente a um salário mínimo. Conforme cálculos do coordenador do Conjuscs, Jefferson José da Conceição, com a decisão do governo de fixar em R$ 998 o piso do mercado de trabalho, em vez dos R$ 1.006 aprovados pelo Congresso, pelo menos R$ 2,8 bilhões deixarão de circular na economia neste ano.
O governo, por sua vez, projeta que cada R$ 1 de aumento no salário mínimo gera incremento de cerca de R$ 300 milhões ao ano nas despesas da União.
Ou seja, com o aumento de R$ 44, o impacto neste ano será de cerca de R$ 13,2 bilhões. Caso o montante maior tivesse sido aprovado, a diferença de R$ 55 elevaria o desembolso adicional para R$ 15,6 bilhões, uma diferença de R$ 2,4 bilhões.
“Esse já é um dos indícios do teor da reforma da Previdência, em que o objetivo é cortar gastos a todo custo”, assinala Conceição.
Ele pondera, ainda, que o montante está muito aquém do necessário para se viver com dignidade. “Com o mínimo acima de R$ 1.000 diminuiríamos um pouco a distância entre a realidade do mercado de trabalho e dos benefícios previdenciários. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), para manter uma casa com dois adultos e duas crianças, conforme valores de novembro, seriam necessários R$ 3.959, mais de quatro vezes acima do piso”, exemplifica.
INTERMITENTE - O economista também alerta para o fato de que Bolsonaro já deixou claro que é favorável à maior informalidade do mercado de trabalho. Com isso, a tendência é que cresçam contratos de emprego intermitente, regulamentado pela reforma trabalhista, nos quais o empregado é contratado para atuar apenas mediante convocação ou demanda e recebe uma remuneração conforme o período pelo qual trabalhou.
Tanto que, no decreto assinado ontem, estão previstos os valores mínimos de R$ 33,27 para a diária de trabalho e de R$ 4,54 para a hora. “A tendência é que, com a popularização desta modalidade, os profissionais recebam até menos do que um salário mínimo”, sentencia.