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domingo, 30 de agosto de 2009

Terceirização no Brasil: do discurso da inovação à precarização do trabalho (atualização do debate e perspectivas)"



Livro: "Terceirização no Brasil: do discurso da inovação à precarização do trabalho (atualização do debate e perspectivas)"

Formato: 14 x 21 cm, 302 páginas

ISBN: 978-85-7419-962-7

Organizadores: Denise Motta Dau, Iram Jácome Rodrigues Jefferson José da Conceição



No Brasil, a terceirização é caracterizada, em larga medida, pela precarização do trabalho: redução de salários e benefícios, aumento de jornadas de trabalho, geração de insegurança no emprego, quebra de solidariedade entre os trabalhadores, entre outros aspectos. Terceirizar ao máximo é entendido como trajetória desejável da empresa. Isto, evidentemente, trouxe impactos profundos sobre o mercado de trabalho e o sindicalismo. Este livro representa um esforço para retirar o falso véu de modernidade da terceirização, sem, no entanto, negar os fatores competitivos relacionados à especialização e escalas de produção e sem deixar de reconhecer os novos elementos de contradição que a terceirização traz para o mundo do trabalho e ação sindical. Também apresenta alternativas concretas de ação nos campos da legislação, da organização sindical e da negociação coletiva capazes de fazer frente à erosão dos direitos dos trabalhadores. A obra reúne textos de pesquisadores sobre a temática das relações de trabalho, ligados a universidades como USP, UFSCar, UFRJ, UNICAMP e outras; de assessores que trabalham com o movimento sindical; e de dirigentes sindicais, de diferentes ramos, que integram a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Há também gestores públicos, membros de organizações não-governamentais e convidados internacionais. Em suma, trata-se de um feliz encontro de olhares diversos sobre o mesmo objeto.

O livro poderá ser adquirido na:

EDITORA ANNABLUME


Telefone: (11) 3812-6764 / 3814-2776

Site: www.annablume.com.br




E poderá ser adquirido também nas seguintes livrarias e distribuidoras em alguns Estados do Brasil:

AMAZONAS


Metro Cúbico Livros e Ver. Técnicas

Endereço: Rua 24 de maio, 415 – Centro – Manaus – AM

Telefone: (92) 3234-4617

BAHIA:


Atlântica Livraria Papelaria

Av. Gov. João Durval Carneiro, 3665 - Loja 105 - Feira de Santana – BA

E-mail: atlanticalivraria@terra.com.br

Telefone: (75) 3225-3535

MINAS GERAIS:


Asteca Distribuidora de Livros Ltda.

Endereço: Rua Costa Monteiro, 50 – Sagrada Família – Belo Horizonte – MG

Telefone: (31) 3423-7979

Comércio de Livros Ouvidor Ltda-EPP

Endereço: Fernandes Tourinho, 253 – Bairro Savassi – Belo Horizonte – MG

E-mail: savassi@livrariaouvidor.com.br

Telefone: (31) 3221-7473

Quixote Livraria e Café Ltda – UFMG

Endereço: UFMG - Prédio da FASISH – Faculdade de Filosofia – 3º andar – Belo Horizonte – MG

Telefone: (31) 3427-2259

Quixote Sazassi (Zona Sul)

Endereço: Rua Fernandes Tourinho, 274 – Belo Horizonte – MG

Telefone: (31) 3227-3077

PARANÁ:


A Página Distribuidora de Livros Ltda.

Endereço: Rua Santo Antônio, 866 – Rebouças – Curitiba – PR

Site: http://www.apaginadistribuidora.com.br

Telefone: (41) 3213-5640

RIO DE JANEIRO:


EDUERJ

Endereço: Rua São Francisco Xavier, 524 – Maracanã (fica dentro do Campus da EDUERJ)

Site: http://www.uerj.br

Telefone: (21) 2334-0720

ISKIN & ISKIN Ltda.

Endereço: Pça. Quinze, 48 – Passo 1 (dentro do pasto imperial)

Site: www.arlequim.com.br

Telefone: (21) 2220-8471

RIO GRANDE DO SUL:


Dante Distribuidora de Livros Ltda.

Endereço: Rua Gal. Câmara, 428 – Centro – Porto Alegre – RS

Site: www.dantelivros.com.br

Telefone: (51) 3227-6427

Wilson-Wilson Dist. de Livros Ltda.

Endereço: Rua Demetrio Ribeiro, 845 – Centro – Porto Alegre – RS

Telefone: (31) 3221-5931

SANTA CATARINA:


Livraria Livros & Livros Ltda

Endereço: Rua Jerônimo Coelho, 215 – Centro – Florianópolis – SC (próximo ao BESC Central)

Site: www.livroselivros.com.br

Telefone: (48) 3222-1244

SÃO PAULO:


FAI-UFSCAR - Universidade São Carlos

Endereço: Rodovia Washington Luiz, km 235 – (dentro da Universidade São Carlos - Área Norte - embaixo da Biblioteca Comunitária)

Site: http://www.fai.ufscar.br/

Telefone: (16) 3351-8962

Acaiaca Distribuidora de Livros Ltda.

Endereço: Av. Jose Maria de Faria, 470 – Lapa de Baixo – São Paulo – SP

Telefone: (11) 2102-9800

Editora WMF Martins Fontes Ltda.

Site: www.martinsfontespaulista.com.br

Telefone: (11) 2167-9914

EDUSP – Edit. da Universidade de São Paulo

Endereço: Av. Prof. Luciano Gualberto, Trav. J374 (ao lado da Praça do Relógio)

Site: http://www.edusp.com.br/

Telefone: 3091-4161 / 3091-4156

Livraria da Vila Ltda

Alameda Lorena, 1731 – Jardins

Telefone: 3755-5811


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Reestruturação Industrial. Sindicato e Território - alternativas políticas em momentos de crise na região do ABC em São Paulo, Brasil. Revista Crítica de Ciências Sociais, 85, junho 2009.

CONCEIÇÃO, Jefferson José da; RODRIGUES, Iram Jácome; RAMALHO, José Ricardo. Reestruturação Industrial. Sindicato e Território - alternativas políticas em momentos de crise na região do ABC em São Paulo, Brasil. Revista Crítica de Ciências Sociais, 85, junho 2009.


Para acessar o artigo, clique no link abaixo:

www.4shared.com/office/jfI9Nngaba/RCCS_85_JRamalho_IRodrigues_JC.html

sábado, 30 de maio de 2009

O ABC DA CRISE

“O abc da crise”: especialistas analisam a crise global

4/mai/2009
Livro inclui artigos de Maria da Conceição Tavares, Paul Singer, Márcio Pochmann, Paul Krugman, Guido Mantega, Luiz Gonzaga Beluzzo, Chico de Oliveira, Cézar Manoel de Medeiros, Carlos Eduardo Carvalho, Sérgio Sister e Ricardo Berzoini.
 
O livro “O abc da crise”, organizado pelo jornalista Sérgio Sister, estará disponível para venda a partir da próxima semana. A obra, lançamento da Editora Fundação Perseu Abramo, poderá ser adquirida online, na loja virtual da EFPA, já nos próximos dias. Na sequência, a partir do dia 25/5, o livro chega às principais livrarias do país.
Segundo Nilmário Miranda, presidente da FPA, o livro resultou de entendimento com os dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), como uma forma de “contribuir com o debate amplo e qualificado, voltado à preparação dos militantes dos partidos de esquerda, da CUT e outras centrais sindicais, dos movimentos sociais e da juventude engajada. Uma contribuição para o entendimento do que ocorreu, em direção às possíveis alternativas".

Os artigos e seus respectivos autores são: “O abc da crise, por Jefferson José da Conceição; “A crise do dinheiro solto', por Sérgio Sister; “Entupiu o sistema circulatório do capitalismo”, por Maria da Conceição Tavares; “O mistério do inter-relacionamento entre finanças e a economia da produção e produção”, por Paul Singer; “O dia depois de anteontem”, por Ricardo Berzoini; “O papel do setor público na crise”, por Cézar Manoel de Medeiros; “Revolução no embate de ideias e projeto de sociedade”, por Marcio Pochmann, e “A intervenção estatal na crise e a crise do neoliberalismo”, por Carlos Eduardo Carvalho.
Paul Krugman responde pelos artigos “Uma catástrofe anunciada”, “Roleta-russa financeira”, “A depressão econômica está de volta”, e “Para não esquecer”. E Luiz Gonzaga Belluzzo assina os artigos “O problema está aqui”, “Sobre a natureza da economia de mercado”, “O insaciável Moloch”, e “Não se pode brincar com o sistema”.
Também integram o livro as entrevistas com o sociólogo Chico de Oliveira (“Criar cinco Embraer por ano”), e com o ministro Guido Mantega (“Excesso de desequilíbrios”).


SISTER, Sérgio (org.). O abc da crise. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2009. ISBN 978-85-7643-067-4

terça-feira, 19 de maio de 2009

SINDICATO DOS METALÚRGICOS DO ABC: 50 ANOS DE SÍNTESE DA SOCIEDADE BRASILEIRA

19/05/2009 - 10:01:52
Secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo e ex-funcionário do Sindicato, Jeferson José da Conceição, homenageia aniversário da entidade

 O atual Sindicato dos Metalúrgicos do ABC nasceu em 1959 como "Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de São Bernardo do Campo e Diadema". Com a chegada da indústria automobilística, em meados da década de 1950, as bases sindicais de São Bernardo e Diadema passaram a ser maiores do que a de Santo André. Além disso, interessava na época ao PCB - que tinha grande influencia no movimento sindical de então - ampliar o número de sindicatos, o que aumentaria seu poder nas federações sindicais.

O período entre 1959 e 1963 é marcado por fortes mobilizações do movimento sindical. Além das lutas por melhores salários e abono de natal (13º salário), o Sindicato organizou manifestações contra a carestia; a encampação da refinaria de Capuava (no contexto da campanha "O petróleo é nosso"); as lutas pelas Reformas de Base.

Entre 1964 e 1977, o Sindicato viveu sob a sombra dos interventores e das prisões e perseguições de lideranças sindicais, militantes e trabalhadores em geral. Este período tão longo de repressão só foi possível porque o País viveu o chamado "milagre econômico" (taxas de crescimento do PIB em torno de 10% ao ano entre 1968 e 1973), que serviu para arrefecer as críticas às más condições de trabalho, ao autoritarismo nas fábricas e aos relativamente baixos salários (quando comparados com os níveis de lucros das multinacionais). No entanto, ao final da década de 1970, o ritmo de crescimento econômico já não era o mesmo e a inflação era combatida com políticas de contração salarial. A repressão política e o arrocho dos salários estiveram na base das grandes greves da categoria no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980: 100 mil metalúrgicos em Assembléia na Vila Euclides em 1980; 41 dias de greve. As grandes greves desse período tiveram imensa repercussão nacional e internacional e tornaram o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC uma instituição respeitada e referência na luta política brasileira. Na Região do ABC, nasceriam, na década de 1980, o Partido dos Trabalhadores (1980) e a Central Única dos Trabalhadores (1983).

De lá pra cá, muita coisa mudou. Derrotado em três eleições para Presidência da República, a principal liderança do Sindicato e do PT, Luis Inácio Lula da Silva, torna-se Presidente da República nas eleições de 2002 e é reeleito em nas eleições de 2006.  Sua popularidade tem se mantida elevada em todas as pesquisas de opinião.

Mas as mudanças foram profundas também para o parque industrial do ABC e para a categoria representada pelo Sindicato.

Hoje, a participação da indústria no total dos empregos é bem menor do que o que verificávamos nas décadas de 1970 e 1980. Caiu a participação relativa da indústria e subiu o peso do comércio e dos serviços no total de empregos. Antigas fábricas industriais foram substituídas por modernos shoppings, hipermercados, franquias de fast food e igrejas.  Isto pode ser emblematicamente percebido, por exemplo, com a mudança da Avenida Industrial em Santo André. Antes predominantemente industrial - como o próprio nome indicava - a avenida hoje está em claro processo de mudança. Galpões industriais cedem espaço para aqueles novos empreendimentos.

 Atualmente, participação das importações é significativamente maior do que, por exemplo, quando das greves de 1979 e 1980 no ABC. Naquele período, as importações eram praticamente proibitivas. Em 1979, o volume de importações das montadoras em autoveículos e componentes não passava de US$ 276 milhões. Quase três décadas depois, em 2007, o volume de importações já alcançava US$ 8,4 bilhões, de acordo com os dados da ANFAVEA.

O interior da fábrica metalúrgica também mudou. Hoje, o conceito de "planta industrial" é mais apropriado do que o da antiga "fábrica". A linha de montagem foi bastante refeita. A automação e a adoção de novas formas de organização da produção, tais como o Just in time, as células de produção e o trabalho em equipe, aumentaram expressivamente a produtividade do trabalho. Em 1976, foram produzidos cerca de 981 mil veículos no Brasil, com o emprego de 117,8 mil empregados. Isto dá uma média de 8,3 veículos produzidos ao ano por empregado. Trinta anos depois (2005), foram produzidos 2,5 milhões de veículos, com 94,2 mil empregados. O que significa que a produtividade hoje é superior a 27 veículos por trabalhador ao ano em média. Em 1976, cerca de 66% dos trabalhadores eram de trabalhadores não-qualificados (serventes, ajudantes) e semiqualificados (operadores, manobristas, montadores, prensistas, tapeceiros). Mesmo os qualificados (encanadores, funileiros, pintores, eletricistas, torneiros, afiadores) e altamente qualificados (ferramenteiros) ainda tinham características de trabalhadores "operários". Hoje, cerca de 27,6% dos empregados já possuem curso superior completo.Diferentemente de antes, muitos destes novos empregados vêem o trabalho em uma montadora como uma entre outras possibilidades.

Outro fenômeno importante, que mudou as características da fábrica atual, foi o intenso processo de terceirização que ocorreu desde então. Tome-se, por exemplo, o caso da planta da Volkswagen em São Bernardo, a maior fábrica da categoria representada pelo Sindicato. A fabrica da VW na Rodovia Anchieta tinha cerca de 43.000 trabalhadores no final da década de 1970, quando ocorreram as grandes greves. A fábrica não apenas montava os veículos, mas também produzia os motores, o câmbio, a transmissão, além de inúmeras pequenas peças como parafusos, frisos, cintos etc. Tinha também ambulatórios médicos, restaurantes, padarias, segurança, açougues, etc. Hoje a fábrica conta com pouco mais de 12 mil trabalhadores, embora a produção seja muito maior hoje do que naquele período. Isto se explica porque boa parte da produção da empresa foi terceirizada, não apenas nas chamadas atividades-meio (segurança, limpeza, manutenção, processamento de dados), mas também nas atividades-fim, como ferramentaria, usinagem, fundição, montagem de pneus, pintura, entre outras. Paradoxalmente, no entanto, a regulamentação e os acordos em torno do tema da terceirização pouco avançaram no período, mesmo nos acordos da Região do ABC. Por isto, esta é uma das prioridades da CUT em sua atual estratégia sindical no momento.

Destaca-se também o processo de descentralização da produção que ocorreu desde então. No final da década de 1970, a Região do ABC representava cerca de 80% da produção nacional de veículos no Brasil. Naquele momento, eram oito as empresas montadoras presentes no Brasil: Volkswagen, Ford, GM, Fiat, Chrysler, FNM, Mercedes-Benz e Saab-Scania.  A maioria delas com fábricas na Região do ABC.  Hoje, a Região do ABC representa cerca de 1/3 da produção nacional. No Brasil, existem atualmente cerca de 18 marcas, com cerca de 27 fábricas, que se espalham em 18  diferentes municípios situados em seis diferentes Estados. 


Diante deste conjunto de profundas mudanças na vida econômica nacional e no processo produtivo, a agenda do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC mudou. O emprego passou para o centro desta agenda. No final da década de 1970, a luta  concentrava-se no aumento dos salários e no processo de democratização no País e no interior das empresas. É verdade que a temática do emprego já aparecia nas grandes demissões de 1981 e na luta contra  os efeitos da automação. Mas tratava-se de uma temática ainda embrionária entre as preocupações do movimento sindical. Uma das razões reside no fato de que até aquele momento reduções do nível de atividade geravam reduções de postos de trabalho, mas estas fases eram sucedidas pela retomada do crescimento da produção, que gerava novas contratações. A partir da década de 1990 isto não mais seria assim. Fases de crise eram sucedidas por fases de crescimento, mas sem geração de tantos postos de trabalho. Muitas vezes, inclusive, com demissões.

Desta forma, nota-se, por parte do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, uma série de ações em prol da defesa do emprego: Frente contra a Recessão com as Prefeituras em 1990; Vigília contra a Recessão em 1991; Câmara Setorial Automotiva em 1992; negociações de reestruturação produtiva ao longo de todo o período; acordos de flexibilização da jornada com redução da jornada média e campanha "Diz Emprego Brasil" em 1995; Câmara Regional do ABC em 1997; acordo da Volkswagen para evitar 10 mil demissões em 1997; Acordo Emergencial do Setor Automotivo em 1998; apresentação de proposta para a Renovação e Reciclagem da Frota de Veículos em 1998; participação na criação da Agencia de Desenvolvimento Econômico no ABC em 1998;  acordo da VW para evitar o corte de 7,5 mil postos de trabalho e Maratona pelo Emprego em 1998; acordo do lay-off na Ford, evitando a demissão arbitrária de 2,8 mil empregados em 1999; a formação das primeiras cooperativas de produção na categoria desde 1999; a criação da Central de Trabalho e Renda também naquele ano; o enfrentamento e negociação em relação ao anúncio de reestruturação da Volkswagen em 2008, com a possibilidade da demissão de 5800 demissões, inclusive com a ameaça do próprio fechamento da fábrica em São Bernardo do Campo.

A história do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC sintetiza com perfeição a trajetória e as contradições da economia e da sociedade brasileira no último meio século. Por isto, neste momento em que completa 50 anos, trata-se de olhar para trás e analisar todo este período, caracterizado por lutas, conquistas, mas também, porque não dizer, por momentos dramáticos. Esta auto-análise é subsídio vital para que o Sindicato - suas lideranças, militantes e categoria em geral - possa olhar para frente e continuar a ser referência no encontro de soluções criadoras para os novos desafios postos pelo presente e pelo futuro.

Jefferson José da Conceição é o atual Secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo do Campo. Trabalhou no Sindicato entre 1987 e 2003, como assessor da Subseção Dieese. Contribuiu para estruturar a Subseção DIEESE na CUT entre 2003 e 2008. É Economista, Professor da USCS e autor de livro sobre o sindicalismo na Região do ABC. Título: "Quando o Apito da Fábrica Silencia: sindicatos, empresas e poder público diante do fechamento de indústrias e da eliminação de empregos na Região do ABC". Editora ABCDMaior, 2008.

Jefferson José da Conceição é secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo

*Artigo publicado no site do ABCDMaior

segunda-feira, 4 de maio de 2009

UM "ACORDO-PONTE" PARA ENFRENTAR A CRISE



 
 
Jefferson José da Conceição

 

Logo que a crise financeira internacional veio à tona a partir de setembro do ano passado, uma ação relativamente coordenada dos governos dos países desenvolvidos foi acionada. Esta agilidade serviu em alguma medida para reduzir o efeito “tsunami” da crise não apenas na área financeira, mas também na atividade produtiva, no emprego e na renda. É de algo semelhante o que precisamos adotar agora no Brasil, para enfrentar, de modo mais bem sucedido, o momento pelo qual atravessamos.

 

A crise internacional originou-se do descontrole do sistema financeiro, fruto da prevalência, nas últimas décadas, do ideário de que o “livre mercado”, por si só, seria a melhor forma de organização e condução da economia. Isto permitiu que fosse gerado um grande descompasso entre a produção física de produtos e serviços e a geração de títulos financeiros: a primeira pode ser medida pelo PIB mundial calculado em US$ 65 trilhões e a segunda, pelo volume estimado de US$ 600 trilhões na forma de títulos financeiros especulativos diversos, entre os quais se encontravam os títulos da dívida mobiliária americana.

 

Felizmente, os impactos sobre a economia brasileira deverão ser menos dramáticos do que o que verificamos em crises anteriores, como as do aumento do preço do petróleo no final dos anos de 1970 e as da crise da dívida externa ao longo dos anos de 1980. A economia brasileira encontra-se hoje em situação mais sólida em termos de finanças públicas, balanço de pagamentos e controle inflacionário. Os atuais programas sociais - naquela época praticamente inexistentes - permitem um apoio aos desempregados melhor do que antes. As rápidas medidas tomadas pelo governo federal, no que se refere ao aumento da liquidez no sistema bancário, por via da redução do compulsório, acompanhadas do socorro às instituições financeiras mais diretamente atingidas, seguidas do aumento do crédito e da redução tributária em setores fortemente dependentes do crédito, como a indústria automobilística e a construção civil, contribuíram para minorar os primeiros efeitos da crise. Uma única ressalva talvez pudesse ser feita em relação à ausência de contrapartidas formais, especialmente no que se refere à manutenção dos empregos, que, a nosso ver, deveria ser exigida dos beneficiados pelo socorro estatal. A decisão de manutenção dos investimentos do PAC é também sinalizador fundamental para a sustentação do nível de atividade econômica.

 

Não obstante as ações apontadas acima, não há como a economia brasileira blindar-se totalmente contra a crise. A contração do crédito - resultado da interrupção de linhas de financiamento internacional e de um sistema bancário interno mais receoso quanto à expansão da inadimplência -, a incerteza de consumidores e investidores quanto ao futuro e a diminuição das exportações pressionarão a economia para baixo nos próximos meses. Deste modo, os efeitos da crise, mesmo que localizados, já começam a se fazer sentir gradualmente: férias coletivas, acordos de suspensão temporária do contrato de trabalho, anúncio de demissões em algumas áreas.

 

Ainda que possa ser compreendida em alguns casos como última alternativa de sindicatos e empresários para preservar os empregos, a redução de salários não é solução estrutural para a crise em economias de baixo nível de renda como o Brasil. Ao contrário: ela tende a aprofundar o problema, pois, além de agravar o cenário de incerteza quanto ao futuro, retrai o consumo não apenas de bens de maior valor, mas também de alimentos, vestuário, calçados entre outros.

 

 

Há controvérsia quanto à duração da crise, mas um grande número de economistas, entre os quais nos incluímos, acredita que o período de maiores dificuldades residirá neste primeiro semestre de 2009. Se esta hipótese é correta, e ela parece ser razoável à luz das ações tomadas em nível internacional e nacional, é necessária então a construção de uma espécie de “acordo- ponte”, estabelecido entre Poder Público (em seus três níveis), empresários e trabalhadores, que nos possibilite atravessar sem grandes danos estes meses mais difíceis.

 

As premissas deste acordo-ponte seriam: a) a queda natural da demanda reduzirá a necessidade de altos níveis de produção e, portanto, diminuirá o volume de horas trabalhadas neste primeiro momento – logo, instrumentos de flexibilização da jornada são bastante adequados; b) não deve haver redução dos salários; c) as empresas necessitam de crédito fácil e barato; d) os Governos poderiam analisar também certa flexibilidade em relação ao prazo de recebimento de impostos, mas não podem abrir mão da arrecadação; e) é fundamental o compromisso formal com a manutenção dos empregos.

 

Neste contexto, instrumentos como a jornada flexível de trabalho (como a fixação da jornada anual e o banco de horas), o adiamento do pagamento de impostos como o IPI, ICMS e IPTU, e a construção de inovações financeiras por parte de órgãos como o BNDES (por exemplo, as grandes empresas poderiam dar algum aval para a concessão de crédito às pequenas e médias empresas pertencentes à sua cadeia, na forma de recebíveis que estas têm a receber com elas) podem compor um arranjo de grande valia para a preservação da atividade econômica e do emprego.

 

Um acordo-ponte como este - que bem se poderia denominar de Programa de Manutenção da Atividade Econômica, do Emprego e da Renda - requer a coordenação do Governo Federal, mas de tal maneira que haja o envolvimento das três esferas de governo (União, Estados e Municípios), bem como das representações empresariais e de trabalhadores.  

 

Além de participar desta iniciativa, os municípios podem também adotar outros instrumentos que, embora limitados, ajudam a atacar a crise em seus efeitos. Medidas como a execução de obras públicas, incentivo ao cooperativismo, estímulo ao empreendedorismo, requalificação profissional e apoio aos desempregados são instrumentos necessários em épocas de crise. Inserir estas medidas em uma ação integrada somente pode aumentar sua eficácia.

 

Os atores sociais da Região do ABC - sindicatos, representações empresariais e governos - organizam para os dias 4 e 5 de março, em São Bernardo do Campo, um Seminário que buscará estabelecer os termos de uma espécie de “carta do ABC” contendo proposições às três esferas de governo e à sociedade brasileira em geral. Poderá ser uma ótima oportunidade para discutirmos estas e outras sugestões. Será um momento importante de teste de nossa capacidade de, uma vez mais, aproveitar a crise e fazer dela um espaço de novas oportunidades.

 

Jefferson José da Conceição, 46, é Secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo do Campo e Professor Doutor de Economia Brasileira da USCS.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Quando a cooperação é estratégia competitiva


CONCEIÇÃO, Jefferson José da. Quando a cooperação é estratégia competitiva. In: Livre Mercado. Nosso Século XXI. Santo André: Livre Mercado, 2008.

Veja a íntegra do artigo abaixo:


Nosso Século XXI (2ª Ed.)

Quando a cooperação
é estratégia competitiva

  JEFFERSON JOSE DA CONCEIÇÃO - 16/9/2008

Em 2001, quando o primeiro volume de Nosso Século XXI reuniu
especialistas de diferentes áreas para analisar o Grande ABC, um dos articulistas, o saudoso prefeito Celso Daniel, escreveu: “Embora a crise estrutural do Grande ABC já tenha completado mais de duas décadas, o futuro da região não está nem de longe selado”. Havia na época séria preocupação com a crise prolongada pela qual passava a região, mas também existia confiança em que a sociedade local poderia reagir a partir das próprias ações, não obstante os grandes constrangimentos nacionais e internacionais.

Sete anos depois, nesta segunda rodada de reflexões proposta pela Editora Livre Mercado, o quadro alterou-se. O forte crescimento da indústria nacional desde 2004 refletiu-se diretamente na economia do Grande ABC, com retomada da produção e do emprego. Não apenas o resgate do crescimento econômico contribuiu para reacender o otimismo regional. Um conjunto de novos elementos estruturais também jogou seu peso — como o investimento da Petrobrás na modernização e ampliação do Pólo Petroquímico de Capuava, bem como a decisão também do governo federal em atender ao pleito histórico de constituir a UFABC (Universidade Federal do Grande ABC).

O quadro atual é menos dramático do que o vivido na década de 90. Isso, porém, não deve turvar a visão da sociedade a respeito dos imensos desafios que continuam a se recolocar. Não é recomendável que atores e instituições sociais do Grande ABC fiquem excessivamente confiantes de que o pior passou. Com efeito, após a crise aguda dos anos 1990 — quando foram ceifados cerca de 177 mil empregos industriais formais nos sete municípios e encerradas centenas de fábricas –, a região reocupou de 2004 para cá a capacidade produtiva instalada e, com isso, voltou a ser também palco de novos investimentos.

Essa expansão guarda íntima relação com o ritmo de crescimento da economia internacional, o que aumentou sobremaneira as exportações do País, e com a política econômica interna de expansão do crédito ao consumidor. Os dois determinantes, o externo e o interno, tiveram efeitos amplificados no Grande ABC, já que o crescimento atual assentou-se em grande medida nos segmentos de metal-mecânica (com destaque para as indústrias automobilística e de bens de capital) e de química-petroquímica, que apresentam taxas de crescimento maiores do que a média dos outros setores.
O quadro alvissareiro vivido pelo parque industrial regional nesse período recente não permite a interpretação de que tenham sido resolvidos ou equacionados os graves problemas de competitividade das cadeias produtivas, que foram postos em relevo nos anos de reestruturação da década anterior. A instalação de novas unidades de produção fora do Grande ABC e a possibilidade de retração econômica em função da crise norte-americana e da economia internacional como um todo devem ser tomadas como ameaças reais à continuidade desse quadro. É difícil acreditar que o presente ritmo de crescimento se mantenha por período tão longo. Assim, melhor seria tomar o atual momento para implementar, com menores restrições, um conjunto de transformações necessárias visando ao aumento da nossa competitividade.

Estruturalmente, a continuidade da expansão do Grande ABC nos próximos anos pressupõe das políticas públicas um esforço em alcançar pelo menos dois objetivos centrais: 1) implementar políticas que resultem na melhoria da qualidade de vida em áreas como saúde, educação, moradia e segurança, que é o objetivo principal de qualquer governo; e 2) focalizar em espaços como Câmara Regional e Agência de Desenvolvimento Econômico ações de revitalização e de incremento da competitividade das principais cadeias produtivas, como a metal-mecânica e a química, tendo em vista o papel que exercem em efeitos dinâmicos e aumento dos investimentos locais. Pretendo tecer algumas considerações e proposições em torno do segundo objetivo, que é a elevação da competitividade sistêmica das nossas cadeias produtivas.

É preciso que as políticas públicas tomem a modernização do parque industrial como objeto de planejamento. De certa forma, tentou-se isso na segunda metade dos anos 1990 na Câmara Regional, o que foi apenas parcialmente bem-sucedido, como relatei em meu livro “Quando o apito da fábrica silencia: sindicatos, empresas e poder público diante do fechamento de indústrias e da eliminação de empregos na Região do ABC”(ABCD Maior-MP Editora, 2008). O alcance foi parcial, entre outros motivos, porque a Câmara Regional não conseguiu efetivamente envolver, à exceção do setor petroquímico, as grandes empresas nos acordos de cooperação regional. E também porque o governo federal à época não deu qualquer suporte institucional para esse envolvimento. Antes o contrário: o governo promoveu a guerra fiscal, tornando eventuais acordos de cooperação no Grande ABC espécie de ameaça às benesses obtidas pelas empresas com tal guerra.

Apesar dos níveis mais elevados de produtividade alcançados a partir da reestruturação dos últimos 20 anos, é importante ter claro que a região ainda exibe expressivo número de empresas com maquinários antigos, layouts de produção e técnicas de gestão ultrapassados, relações entre empresas excessivamente verticalizadas (relações de comando unilaterais no sentido da grande para a média e pequena empresa), mão-de-obra com baixa escolarização formal, distanciamento entre universidades e empresas, problemas graves de logística de transporte — a despeito das inovações introduzidas em empresas de ponta como as montadoras de veículos.

Nesse ambiente de significativos estrangulamentos estruturais é que os custos salariais no Grande ABC podem configurar-se em problema da atividade produtiva. Não porque os custos na região sejam meramente mais altos que em outras localidades do País, como induzem a pensar conceitos frágeis como o do Custo ABC — frágeis porque não consideram uma regra básica de análise microeconômica que é a necessidade de comparar custo e produtividade do fator de produção (por exemplo, o fator trabalho pode ter custo relativamente alto, mas sua utilização será recomendada sempre que a produtividade for maior do que o custo). Os custos salariais na região podem tornar-se um problema porque a produtividade potencial do parque industrial é emperrada pelos problemas anteriormente apontados.

Entre as alternativas que se apresentam para aumentar o grau de competitividade industrial como um todo, e das empresas que fazem parte dessa estrutura, está o mecanismo das livres forças do mercado. Ou seja, o alcance da competitividade ocorreria por meio de ações individualizadas de cada empresa, com especial destaque para a redução de custo com mão-de-obra. A terceirização precarizadora, a automação, a rotatividade, a redução dos reajustes salariais, a fixação de pisos salariais de entrada mais baixos, a redução de benefícios — todos são mecanismos que fazem parte dessa estratégia.
Nessa primeira via, o planejamento industrial, quando ocorre, se faz quase que exclusivamente no âmbito da grande empresa — mesmo que envolva as médias e pequenas empresas — na forma de relações extremamente hierarquizadas e muitas vezes autoritárias. Nessa via, as relações entre capital e trabalho também tendem a se caracterizar pelo conflito, pois a estratégia é a da redução do custo da mão-de-obra pela precarização do trabalho. Por sua vez, diante desse ambiente de tensões, o Poder Público prefere se eximir do esforço de construção de políticas industriais regionais, admitindo no máximo algumas ações em favor das pequenas empresas.

A estratégia apontada no parágrafo anterior padece de grave equívoco, que é selecionar como perdedor um segmento que tem peso e influência nos rumos políticos e econômicos do Grande ABC, marcado pela forte organização sindical, greves históricas, conquistas trabalhistas, como é típico em regiões fordistas. Quebrar a força do operariado nessas regiões pressupõe a ocorrência de crises dramáticas de emprego e desorganização social. Na prática, essa via é incompatível com a democracia e com a existência de forças sociais que têm elevada densidade institucional e política regional, como é o caso do sindicalismo e dos movimentos sociais no Grande ABC.

A via positiva, ou o Capital Social,
aproxima políticos, agentes sociais e
econômicos em torno do desenvolvimento


Uma outra alternativa, bem distinta da primeira e que por isso será chamada aqui de via positiva, é a que busca aprofundar os instrumentos de planejamento e de cooperação entre as instituições e os atores locais, de maneira a gerar série de sinergias. Nesta alternativa, as representações sociais, sem deixar de reconhecer e respeitar suas diferenças, procuram realizar ganhos por meio da cooperação mútua em um projeto de desenvolvimento comum e no qual se vêem representadas.

Cabe desenvolver um pouco melhor o que é cooperação. Esse conceito tem sido objeto de grande interesse de trabalhos acadêmicos recentes sobre experiências de regiões cuja elevada competitividade econômica parece residir nos atores políticos, sociais e culturais que promoveram aproximação e cooperação para implementar ações coordenadas. É o que alguns estudiosos denominam de Capital Social. A força desse capital não deriva propriamente de elementos econômicos clássicos como oferta de crédito, incentivos fiscais e infra-estrutura. Repousa em fatores como a confiança e o associativismo constituídos historicamente entre as partes, já que esses fatores estimulam e facilitam ações de colaboração entre os grupos que compõem a comunidade. É o caso da experiência da III Itália, como mostrou o notável trabalho de Robert Putnam, Comunidade e Democracia.

Essa segunda via exige, é claro, grande esforço de engenharia social e política, que tende a ser ainda mais árduo em um Grande ABC identificado pelos conflitos trabalhistas, pelo baixo grau de cooperação entre empresas e entre estas e o Poder Público.

Para o sucesso do processo de cooperação, uma ação prévia deve ser a confecção de um bom diagnóstico sobre o atual estágio competitivo do parque industrial do Grande ABC, de maneira a medir com indicadores e estatísticas abrangentes e confiáveis itens como produtividade, verticalização, valor adicionado, inovação de produto, processos e serviços, formação de mão-de-obra, escolarização formal, marketing, qualidade das relações de trabalho, entre outros. Tal pesquisa de campo deve também possibilitar comparações com outros parques industriais regionais e internacionais, apontando os pontos fortes e frágeis do Grande ABC.

Infelizmente, ainda não se tem essa fotografia das nossas cadeias produtivas. O que há algumas vezes são informações esparsas de unidades industriais isoladas, mesmo assim raramente disponibilizadas publicamente. Realizar tal diagnóstico é essencial, em especial após as agudas mudanças pelas quais passou o parque industrial em período recente. Não para encontrar culpados pela suposta existência de defasagens entre a região e outras áreas de produção industrial, e sim para conhecer em detalhes os órgãos que compõem o corpo industrial do Grande ABC. Instituições independentes de pesquisa podem, sempre em conjunto com empresariado, sindicatos e Poder Público, cumprir a tarefa de mapear os problemas a serem enfrentados. A propósito, é uma boa oportunidade para maior envolvimento da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) com os problemas específicos do Grande ABC, possivelmente em parceria com outras instituições locais como a USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul), que há anos se debruça sobre o tema da regionalidade. De posse desse diagnóstico, poderemos fixar metas de produtividade, qualidade, eficiência e distribuição dos resultados.

São inúmeras as possibilidades abertas quando se põem em marcha processos de cooperação. A dificuldade no Grande ABC reside no fato de que esses processos devem avançar no aumento da produtividade por meio de economias de escala e redução de custos e, ao mesmo tempo, garantir o nível de emprego e as conquistas sindicais na área de rendimentos, benefícios e democracia no local de trabalho. É evidente que essa condição impõe desafio muito maior de construção coletiva.
As negociações de PLR (Participação nos Lucros e Resultados) — cuja presença nas relações de trabalho nas principais empresas locais tem crescido de 1995 para cá — constituem-se em modelo de referência da via positiva. Uma das características no Grande ABC é que, diferentemente de outras regiões do País, as negociações de PLR costumam representar sofisticado acordo entre capital e trabalho: a empresa ganha com a fixação de metas de melhoria de vários indicadores, enquanto os trabalhadores ganham prêmios monetários e influência na gestão das empresas. Trata-se de um jogo de soma positiva que, nos marcos do capitalismo brasileiro, permite flexibilidade, negociação e cooperação entre as partes.

O aumento da competitividade das cadeias produtivas regionais pode também ser objeto de cooperação entre os atores e instituições sociais. Para se ter idéia de como esse modelo funcionaria na prática, tome-se o exemplo do custo com fretamento de ônibus para transporte dos trabalhadores. Número expressivo de grandes empresas tem este gasto na região. Pergunta-se: é possível reduzir esse custo sem perda desse direito dos trabalhadores? Ao que parece, sim. Basta notar que muitos fretados trafegam semivazios simplesmente porque as empresas agem isoladamente, sem cooperação. Assim, um esforço de articulação permitiria estruturar escala de horários envolvendo um conjunto de empresas, de forma que os ônibus pudessem servir não apenas a um, mas a um grupo de empregadores. Por sua vez, o Poder Público poderia cooperar por meio da criação de coletores-tronco, articulando as frotas privadas com as linhas públicas. Como resultado dessa ação cooperativa, as empresas teriam redução de custos com fretes em função do melhor aproveitamento de assentos e de itinerários, os trabalhadores continuariam a ser transportados por fretados e os municípios retirariam de circulação alguns ônibus ociosos, além de reduzir a força de mais um vetor de evasão industrial.

Um segundo exemplo é o da alimentação dos trabalhadores. Será mesmo necessário que as empresas têm de cumprir todas as etapas da alimentação em seus refeitórios? Ou será que, a partir da discussão de cardápios comuns, não seria possível preparar algumas fases das refeições em restaurantes comuns? Note-se que não defendo aqui a terceirização precarizadora, com a mera passagem de refeições realizadas por trabalhadores diretos nas fábricas para trabalhadores terceirizados, precarizados. O que se defende é a integração de atividades entre um conjunto de empresas, de forma a reduzir custos, sem que a qualidade e a quantidade da alimentação sejam afetadas e sem perda de empregos. Se ocorrerem alterações, têm de ser para melhor. É a regra da via positiva.
Mais um exemplo é o dos convênios médicos, uma realidade de grande número de trabalhadores na região. A ação cooperativa — e desde que previamente negociada com sindicatos — poderia dar às empresas um poder de oligopsônio (isto é, de poucos compradores diante de vários ofertantes) nas negociações com grupos privados de saúde suplementar. Isso também ajudaria a reduzir custos sem necessariamente afetar as conquistas trabalhistas por bons convênios. Poderia também viabilizar um aprofundamento do debate sobre o SUS (Sistema Único de Saúde), sobretudo porque a saúde do trabalhador e a prevenção de doenças são responsabilidade desse sistema público. O SUS também deve ser de interesse de empresas e trabalhadores que compõem as cadeias produtivas regionais, tendo em vista que os atendimentos mais complexos e custosos acabam sendo realizados no sistema público, e não no setor privado.

Um outro exemplo de parceria entre Poder Público e iniciativa privada consiste em disponibilizar novas áreas para indústrias. Esse é hoje um problema grave no Grande ABC, haja vista a clara disputa entre indústrias e residências pelas escassas áreas ainda disponíveis. Contudo, um olhar mais atento permite perceber que o mesmo processo que gerou a crise da indústria regional, e por consequência o encerramento de várias unidades de produção, fez emergir também novas áreas possíveis de reaproveitamento: trata-se dos diversos e gigantescos galpões vazios que podem ser vistos nos centros das cidades. Muitos galpões tornaram-se objeto de intermináveis contendas jurídicas e fiscais. É nesse ponto que uma participação ativa do Poder Público, em processos de cooperação com indústrias que queiram investir produtivamente na região, pode contribuir em muito para resolver mais rapidamente os referidos
impasses.

Cooperação não conflita com competição.
Cooperando com outros, cada ator pode ficar
mais forte em sua estratégia produtiva


Muitas outras ações cooperativas podem gerar solidariedade de interesses, viabilizando negociações tripartites (empresas, sindicatos e governos) ou bipartites (empresas-empresas, empresassindicatos, empresas-Poder Público). São os casos da qualificação profissional e da educação formal dos trabalhadores, da segurança patrimonial, do uso de energia e água, do empréstimo de equipamentos, da compra de matérias-primas, do comércio exterior, da infra-estrutura rodoviária e ferroviária, do transporte de mercadorias, da utilização do Porto de Santos, das telecomunicações, entre tantas outras.

Registre-se que o modelo de cooperação não é conflituoso com o incentivo à competição, elemento essencial em um desenho de crescimento capitalista. Trata-se, isso sim, de organizar a agenda de cada ator de maneira que ele veja que, cooperando com outros, poderá ficar mais forte em sua estratégia competitiva.

Uma política industrial regional com essa configuração exige grande esforço de coordenação (governance) por parte dos atores. É claro que o Poder Público deve exercer importante papel na coordenação. O próprio sindicalismo pode ter tarefa central atuando como espécie de quebrador de gelo (broker), inclusive no diálogo entre grandes, médias e pequenas empresas. Afinal, que ator social no Grande ABC, senão os sindicatos, mantém constante diálogo e negociação com todas as partes envolvidas? Portanto, ao invés da difusão da imagem de um sindicalismo selvagem, o ideal para o Grande ABC é explorar ao extremo a capacidade de articulação, mobilização e negociação do sindicalismo local, para que sua força se solde de maneira planejada com os interesses mais amplos da região. É lógico que, para que isso ocorra, a via positiva deverá contemplar elementos da pauta sindical, como acordos salariais de longo prazo que incorporem ganhos de produtividade e redução da jornada de trabalho, entre outros.

Vale registrar que essa estratégia de desenvolvimento das cadeias produtivas locais deve buscar também articulação com a estrutura industrial de outras regiões de São Paulo e de outros Estados. Isso abrirá novas possibilidades e parcerias, além de evitar que se caia no velho e ineficiente modelo da guerra fiscal.

domingo, 30 de novembro de 2008

QUANDO O APITO DA FÁBRICA SILENCIA

CONCEIÇÃO, Jefferson José da. Quando o apito da fábrica silencia: sindicatos, empresas e poder público diante do fechamento de indústrias e da eliminação de empregos na Região do ABC. São Bernardo do Campo, SP: MP Editora, 2008.

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Quando o Apito da Fábrica Silencia
       
 
  


  SINOPSE:

(...) uma reflexão sobre questões como a reestruturação industrial e a literatura sobre essa temática, o processo de industrialização do ABC no século passado, as políticas governamentais nacionais na década de 1990 e seus impactos na reestruturação da industria no ABC, a ação dos atores sociais diante desse porcesso e, por fim, as percepções de diferentes atores sociais- empresários, sindicalistas e agentes do poder público- sobre as mutações ocorridas, no período estudado, no panorama regional. Quando o Apito da Fábrica Silencia é um livro que trata, de forma significativa, das amarguras de uma região cuja população, atualmente de cerca de 2,5 milhões de habitantes, conseguiu, juntamente com suas instituições fortemente ancoradas na sociedade civil, superar, em parte, a crise que se abateu sobre esse território na última década do século passado.